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terça-feira, 1 de novembro de 2011

Poetas da Nossa Terra

Fernando Pessoa




FELICIDADE





Volte....pois o video também merece ser visto...

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Poetas da Nossa Terra


Natália Correia - Poema II


De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem. 

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Poetas da Nossa Terra





No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada,
Uns por verem rir os outros
E os outros sem ser por nada -
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada...


No comboio descendente
Vinham todos à janela,
Uns calados para os outros
E os outros a dar-lhes trela -
No comboio descendente 
Da Cruz Quebrada a Palmela...


 No comboio descendente
Mas que grande reinação!
Uns dormindo, outros com sono,
E outros nem sim nem não
No comboio descendente
De Palmela a Portimão... 

- Fernando Pessoa 


sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Poetas da Nossa Terra




Músicas

Desculpo-me dos outros com o sono da minha filha.
E deito-me a seu lado, 
a cabeça em partilha de almofada.

Os sons dos outros lá fora em sinfonia
são violinos agudos bem tocados.
Eu é que me desfaço dos sons deles
e me trabalho noutros sons.

Bartók em relação ao resto.

A minha filha adormecida.
Subitamente sonho-a não em desencontro como eu 
das coisas e dos sons, orgulhoso 
e dorido Bartók.

Mas nunca como eles
bem tocada
por violinos certos.



Ana Luísa Amaral
Minha Senhora de Quê
 

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Poetas da Nossa Terra



Praia das Conchas

No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.
Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.
Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.
Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.
Sophia de Mello Breyner Andresen – Obra Poética I

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Poetas da Nossa Terra















Gozo
 
 
Desvia o mar a rota
do calor
e cede a areia ao peso
desta rocha
Que ao corpo grosso
do sol
do meu corpo
abro-lhe baixo a fenda de uma porta
e logo o ventre se curva
e adormece
e logo as mãos se fecham
e encaminham
e logo a boca rasga
e entontece
nos meus flancos
a faca e a frescura
daquilo que se abre e desfalece
enquanto tece o espasmo o seu disfarce
e uso do gozo
a sua melhor parte




M.Teresa Horta


terça-feira, 11 de outubro de 2011

Poetas da Nossa Terra




SO-NETO JORGE, Luiza

A silabar que o poema é estulto 
o amado abre os dentes e eu deslizo; 
sismos,orgasmos tremem-lhe no olhar 
enquanto eu, quase a rimar, exulto. 

Conheço toda a terra só de amar: 
sem nós e sem desvãos, um corpo liso. 
Tenho o mênstruo escondido num reduto 
onde teoricamente chega o mar. 

Nos desertos-íntimos, insuspeitos- 
já caem com a calma as avestruzes 
-ou a distância, com os oásis, finda; 

à medida que nos arcaicos leitos 
se vão molhando vozes e alcatruzes 
ao descerem ao fundo pego, e à vinda. 



Luiza Neto Jorge
O Amor e o Ócio 
Poesia

sábado, 8 de outubro de 2011

Poetas da Nossa Terra


estou escondido na cor amarga do fim da tarde.

estou escondido na cor amarga do
fim da tarde. sou castanho e verde no
campo onde um pássaro
caiu. sinto a terra e orgulho
por ter enlouquecido. produzo o corpo
por dentro e sou igual ao que
vejo. suspiro e levanto vento nas
folhas e frio e eco. peço às nuvens
para crescer. passe o sol por cima
dos meus olhos no momento em que o
outono segue à roda do meu tronco e, assim
que me sinta queimado, leve-me o
sol as cores e reste apenas o odor
intenso e o suave jeito dos ninhos ao
relento


valter hugo mãe de estou escondido na cor amarga do fim da tarde

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Poetas da Nossa Terra





DIETÉTICAS



Todos os dias alimento uma paz pequena:

não é dar-lhe asas de voar,

mas comida verdadeira

 

Poucos sabem das suas preferências:

às vezes um pouco disto,

outras um pouco daquilo,

e a minha paz pequena vai crescendo

e engordando

 

Alimentando-a do que realmente gosta,

de quando em quando receio dispepsia,

que fique obesa e larga:

e urgentes as dietas

 

Para já, a proporção peso-largura

está correcta, mas temo pelo resto:

uma ruptura stibita, ou fome

desmedida que a conduza sozinha

a procurar comida,

tornando-a viciada e vulnerável

 

Muito gorda, sem eficácia nenhuma,

prevejo-a, anti-bulímia,

mas em bruma,

tão sartreanamente

irrecuperável

 
ANA LUÍSA AMARAL, Às Vezes o Paraíso,