Fernando Pessoa
FELICIDADE
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| Músicas |
Desculpo-me dos outros com o sono da minha filha.
E deito-me a seu lado,
a cabeça em partilha de almofada.
Os sons dos outros lá fora em sinfonia
são violinos agudos bem tocados.
Eu é que me desfaço dos sons deles
e me trabalho noutros sons.
Bartók em relação ao resto.
A minha filha adormecida.
Subitamente sonho-a não em desencontro como eu
das coisas e dos sons, orgulhoso
e dorido Bartók.
Mas nunca como eles
bem tocada
por violinos certos.
Ana Luísa Amaral
Minha Senhora de Quê |
Gozo Desvia o mar a rota do calor e cede a areia ao peso desta rocha Que ao corpo grosso do sol do meu corpo abro-lhe baixo a fenda de uma porta e logo o ventre se curva e adormece e logo as mãos se fecham e encaminham e logo a boca rasga e entontece nos meus flancos a faca e a frescura daquilo que se abre e desfalece enquanto tece o espasmo o seu disfarce e uso do gozo a sua melhor parte M.Teresa Horta |
| SO-NETO JORGE, Luiza |
A silabar que o poema é estulto o amado abre os dentes e eu deslizo; sismos,orgasmos tremem-lhe no olhar enquanto eu, quase a rimar, exulto. Conheço toda a terra só de amar: sem nós e sem desvãos, um corpo liso. Tenho o mênstruo escondido num reduto onde teoricamente chega o mar. Nos desertos-íntimos, insuspeitos- já caem com a calma as avestruzes -ou a distância, com os oásis, finda; à medida que nos arcaicos leitos se vão molhando vozes e alcatruzes ao descerem ao fundo pego, e à vinda. Luiza Neto Jorge O Amor e o Ócio Poesia |
estou escondido na cor amarga do fim da tarde. estou escondido na cor amarga do
fim da tarde. sou castanho e verde no
campo onde um pássaro
caiu. sinto a terra e orgulho
por ter enlouquecido. produzo o corpo
por dentro e sou igual ao que
vejo. suspiro e levanto vento nas
folhas e frio e eco. peço às nuvens
para crescer. passe o sol por cima
dos meus olhos no momento em que o
outono segue à roda do meu tronco e, assim
que me sinta queimado, leve-me o
sol as cores e reste apenas o odor
intenso e o suave jeito dos ninhos ao
relento
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