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terça-feira, 14 de maio de 2013

Poetas da Nossa Terra






Não te amo

Não te amo, quero-te: o amor vem d'alma.
E eu n'alma tenho a calma,
A calma do jazigo.
Ai! Não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida - nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! Não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Almeida Garrett
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sexta-feira, 10 de maio de 2013

Poetas da Nossa Terra



O Universo não é uma ideia minha

O Universo não é uma ideia minha.
A minha ideia do Universo é que é uma ideia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos,
A minha ideia da noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.

Alberto Caeiro

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domingo, 5 de maio de 2013

Poetas da Nossa Terra


A TODAS AS MÃES



Quando eu Nasci


Quando eu nasci,
ficou tudo como estava,
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

P'ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...

José Régio
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quinta-feira, 2 de maio de 2013

Poetas da Nossa Terra




Está o lascivo e doce passarinho


Está o lascivo e doce passarinho
Com o biquinho as penas ordenando;
O verso sem medida, alegre e brando,
Despedindo no rústico raminho.

O cruel caçador, que do caminho

Se vem calado e manso desviando
Com pronta vista e seta endireitando
lhe dá no estígio lago eterno ninho

Destarte o coração, que livre andava

(Posto que já de longe destinado),
Onde menos temia foi ferido,

Porque o Frecheiro cego me esperava,

Para que me tomasse descuidado,
Em vossos claros olhos escondido.
Luiz de Camões

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Poetas da Nossa Terra





 ESTIAGEM

(Enxerto)


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O ganhão da Beira alpestre
Chegou da nativa serra,

Para o trabalho campestre.

Mas como amanhar a terra?

Não entra com ela o arado!…
Queimado o tojal nos montes!

Morto à fome e à sede o gado!

Secas ribeiras e fontes!

O sol alto a dardejar
Abrasou o prado e a selva!

E o cordeirito a balar

Sem ter um palmo de relva!

Não se ouvem cantar as noras…
Nem, no alfobre, umas verduras!…

Vêm repontando as auroras,

E cada em vêm mais puras!
................................................ 

Bulhão Pato

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Poetas da Nossa Terra


25 de ABRIL ....Sempre




25 DE ABRIL

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo


                         Sophia de Mello Breyner Andresen 
 

terça-feira, 23 de abril de 2013

Poetas da Nossa Terra

Ao 25 de Abril

                                       



                                      S.O.S! S.O.S.!


Fantasmas de todos os planetas! Fantasmas de todos os planetas!
Saltai em pára-quedas no silêncio que há por dentro do silêncio
e vinde salvar-nos!

Vinde salvar os homens
para aqui abandonados ao pesadelo de si mesmos,
só a serem homens,
homens apenas,
homens sempre,
de manhã até à noite,
semi-homens,
infra-homens,
super-homens,
ex-homens...
E fartos, fartos, fartos, fartos, fartos, fartos
desta desistência
de já nem quererem ser deuses!

Nem de transfomarem os cavalos em relâmpagos!


José Gomes Ferreira

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Poetas da Nossa Terra




Sobre a neve


Sobre mim, teu desdém pesado jaz
Como um manto de neve...  Quem dissera
Porque tombou em plena Primavera
Toda essa neve que o Inverno traz!

Coroavas-me inda há pouco de lilás
E de rosas silvestres... quando eu era
Aquela que o Destino prometera
Aos teus rútilos sonhos de rapaz!

Dos beijos que me deste não te importas,
Asas paradas de andorinhas mortas...
Folhas de Outono e correria louca...

Mas inda um dia, em mim, ébrio de cor,
Há-de nascer um roseiral em flor
Ao sol da Primavera doutra boca!
 
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domingo, 14 de abril de 2013

Poetas da Nossa Terra











das paixões só conheci as mais pequenas
aquelas que nasciam na palma das mãos e desapareciam

com a água do mar. mas não eram paixões por barcos

ou pássaros ou cabelos teus: só uma fenda no céu

verde e azul e uma casa desabitada


das paixões só conheci as mais pequenas

como se no minuto imediato eu tivesse de esperar a morte

ou as aves no seu regresso do norte

de resto, implorei aos deuses uma morada branca

onde nenhum peixe chegasse antes do alvorecer

onde nenhum nome coubesse, onde nenhum olhar entrasse

implorei aos deuses o seu encantamento

não o seu dó. foi então que, das paixões, das mais pequenas

surgiram os teus olhos tão verdes e tão brancos

que só eu neles poderia poisar como um pescador

sem mar onde navegar ou lavar o rosto.


Francisco José Viegas,"As Imagens"

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terça-feira, 9 de abril de 2013

Poetas da Nossa Terra





Quem diz que Amor é falso ou enganoso


Quem diz que Amor é falso ou enganoso,
Ligeiro, ingrato, vão desconhecido,
Sem falta lhe terá bem merecido
Que lhe seja cruel ou rigoroso.

Amor é brando, é doce, e é piedoso.
Quem o contrário diz não seja crido;
Seja por cego e apaixonado tido,
E aos homens, e inda aos Deuses, odioso.

Se males faz Amor em mim se vêem;
Em mim mostrando todo o seu rigor,
Ao mundo quis mostrar quanto podia.

Mas todas suas iras são de Amor;
Todos os seus males são um bem,
Que eu por todo outro bem não trocaria.

Luís de Camões