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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Poetas da Nossa Terra


 "finge tão completamente"
         
                                    
 
         
                  Faz-me falta a tristeza 
                  para o verso: 
                  falta feroz de amante, 
                  ausência provocando dor maior. 
                    
                  Tristeza genuína, original, 
                  a rebentar entranhas e navios 
                  sem mar. 
                  Tristeza redundando em mais 
                  tristeza, desaguando em métrica 
                  de cor. 
                     
                  Recorro-me a jornal, mas é 
                  em vão. A livros russos (largos 
                  e sombrios). 
                  Em provocado rio de depressão, 
                  nem zepellin: balão 
                  a ervas rente. 
                    
                  Um arrastão sonhando-se 
                  navio. 
                    
                  Só se for o que diz o que 
                  deveras sente. 
                  A sério: o Zepellin. 
                  Mas coração: 
                  combóio cuja corda 
                  se partiu. 
  Ana Luiza Amaral

Poetas da Nossa Terra



Deixa a mão
caminhar
perder o alento
até onde se não respira.
Deixa a mão
errar
sobre a cintura
apenas conivente
com nácar da língua.
Só um grito desde o chão
pode fulminá-la.
A morte
não é um segredo
não é em nós um jardim de areia.
De noite
no silêncio baço dos espelhos
um homem
pode trazer a morte pela mão.
Vou ensinar-te como se reconhece
repara
é ainda um rapaz
não acaba de crescer
nos ombros
a luz
desatada
a fulva
lucidez dos flancos.
A boca sobre a boca nevava.

sábado, 5 de novembro de 2011

Poetas da Nossa Terra


Não Cantes o meu nome em pleno dia


Não cantes o meu nome em pleno dia
não movas os seus ásperos motivos
sob a luz dolorosa sob o som
da alegria

Não movas o meu nome sob as tuas
mãos molhadas do choro doutros dias 
não retenhas as sílabas caídas 
do meu nome da tua boca extinta

Não cantes o meu nome a primavera
já o ameaça hoje principia
a vida do meu nome não o cantcs
com a tua alegria



Gastão Cruz
os nomes
Imagem da Linguagem
Assírio & Alvim
1974

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Poetas da Nossa Terra

Fernando Pessoa




FELICIDADE





Volte....pois o video também merece ser visto...

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Poetas da Nossa Terra


Natália Correia - Poema II


De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem. 

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Poetas da Nossa Terra





No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada,
Uns por verem rir os outros
E os outros sem ser por nada -
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada...


No comboio descendente
Vinham todos à janela,
Uns calados para os outros
E os outros a dar-lhes trela -
No comboio descendente 
Da Cruz Quebrada a Palmela...


 No comboio descendente
Mas que grande reinação!
Uns dormindo, outros com sono,
E outros nem sim nem não
No comboio descendente
De Palmela a Portimão... 

- Fernando Pessoa 


sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Poetas da Nossa Terra




Músicas

Desculpo-me dos outros com o sono da minha filha.
E deito-me a seu lado, 
a cabeça em partilha de almofada.

Os sons dos outros lá fora em sinfonia
são violinos agudos bem tocados.
Eu é que me desfaço dos sons deles
e me trabalho noutros sons.

Bartók em relação ao resto.

A minha filha adormecida.
Subitamente sonho-a não em desencontro como eu 
das coisas e dos sons, orgulhoso 
e dorido Bartók.

Mas nunca como eles
bem tocada
por violinos certos.



Ana Luísa Amaral
Minha Senhora de Quê
 

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Poetas da Nossa Terra



Praia das Conchas

No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.
Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.
Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.
Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.
Sophia de Mello Breyner Andresen – Obra Poética I

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Poetas da Nossa Terra















Gozo
 
 
Desvia o mar a rota
do calor
e cede a areia ao peso
desta rocha
Que ao corpo grosso
do sol
do meu corpo
abro-lhe baixo a fenda de uma porta
e logo o ventre se curva
e adormece
e logo as mãos se fecham
e encaminham
e logo a boca rasga
e entontece
nos meus flancos
a faca e a frescura
daquilo que se abre e desfalece
enquanto tece o espasmo o seu disfarce
e uso do gozo
a sua melhor parte




M.Teresa Horta


terça-feira, 11 de outubro de 2011

Poetas da Nossa Terra




SO-NETO JORGE, Luiza

A silabar que o poema é estulto 
o amado abre os dentes e eu deslizo; 
sismos,orgasmos tremem-lhe no olhar 
enquanto eu, quase a rimar, exulto. 

Conheço toda a terra só de amar: 
sem nós e sem desvãos, um corpo liso. 
Tenho o mênstruo escondido num reduto 
onde teoricamente chega o mar. 

Nos desertos-íntimos, insuspeitos- 
já caem com a calma as avestruzes 
-ou a distância, com os oásis, finda; 

à medida que nos arcaicos leitos 
se vão molhando vozes e alcatruzes 
ao descerem ao fundo pego, e à vinda. 



Luiza Neto Jorge
O Amor e o Ócio 
Poesia