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quinta-feira, 28 de abril de 2011

Poetas da Nossa Terra


 

ESTOU MAIS PERTO DE TI PORQUE TE AMO...

Estou mais perto de ti porque te amo.
Os meus beijos nascem já na tua boca.
Não poderei escrever teu nome com palavras.
Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me.
Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto.
Quero a tua boca aberta em minha boca.
E amo-te como se nunca te tivesse amado
porque tu estás em mim mas ausente de mim.
Nesta noite sei apenas dos teus gestos
e procuro o teu corpo para além dos meus dedos.
Trago as mãos distantes do teu peito.
Sim, tu estás em toda a parte.
Em toda a parte.
Tão por dentro de mim.
Tão ausente de mim.
E eu estou perto de ti porque te amo.
( Joaquim Pessoa, in Os Olhos de Isa)




segunda-feira, 25 de abril de 2011

Poetas da Nossa Terra






O meu país sabe as amoras bravas

no verão.

Ninguém ignora que não é grande,

nem inteligente, nem elegante o meu país,

mas tem esta voz doce

de quem acorda cedo para cantar nas silvas.

Raramente falei do meu país, talvez

nem goste dele, mas quando um amigo

me traz amoras bravas

os seus muros parecem-me brancos,

reparo que também no meu país o céu é azul





  PSophia de Mello Breyner Andresen 

ou  Eugénio Andrade.....??

terça-feira, 19 de abril de 2011

Poetas da Nossa Terra









Se me comovesse o amor


Se me comovesse o amor como me comove
a morte dos que amei, eu viveria feliz. Observo
as figueiras, a sombra dos muros, o jasmineiro
em que ficou gravada a tua mão, e deixo o dia

caminhar por entre veredas, caminhos perto do rio.
Se me comovessem os teus passos entre os outros,
os que se perdem nas ruas, os que abandonam
a casa e seguem o seu destino, eu saberia reonhecer

o sinal que ninguém encontra, o medo que ninguém
comove. Vejo-te regressar do deserto, atravessar
os templos, iluminar as varandas, chegar tarde.

Por isso não me procures, não me encontres,
não me deixes, não me conheças. Dá-me apenas
o pão, a palavra, as coisas possíveis. De longe.

Francisco José Viegas (n.1962), "Se Me Comovesse o Amor",2007

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Poetas da Nossa Terra



Se Me Deixares, Eu Digo


  Se me deixares, eu digo
O contrario a toda a gente;
E, n'este mundo de enganos,
Falla verdade quem mente. 


Tu dizes que a minha boca
Já não acorda desejos,
Já não aquece outra boca,
Já não merece os teus beijos; 


Mas, tem cuidado commigo,
Não procures ser ausente:
- Se me deixares, eu digo
O contrario a toda a gente. 



Escrita da época                                       António Botto, in 'Canções'

domingo, 10 de abril de 2011

Poetas da Nossa Terra




Sou de vidro 


Meus amigos sou de vidro
Sou de vidro escurecido
Encubro a luz que me habita
Não por ser feia ou bonita
Mas por ter assim nascido
Sou de vidro escurecido
Mas por ter assim nascido
Não me atinjam não me toquem
Meus amigos sou de vidro

Sou de vidro escurecido
Tenho fumo por vestido
E um cinto de escuridão
Mas trago a transparência
Envolvida no que digo
Meus amigos sou de vidro
Por isso não me maltratem
Não me quebrem não me partam
Sou de vidro escurecido

Tenho fumo por vestido
Mas por assim ter nascido
Não por ser feia ou bonita
Envolvida no que digo
Encubro a luz que me habita 

Lidia Jorge 

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Poetas da Nossa Terra


Dia de Anos

Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Todos esses anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse...
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado...
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo? Coitado!

Não faça tal: porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa: que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los queira ou não queira!






segunda-feira, 4 de abril de 2011

Poetas da Nossa Terra





      BarcaBela


Pescador da barca bela,
 Onde vais pescar com ela,
Que é tão bela,

 Ó pescador?

Não vês que a última estrela
 
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,

 Ó pescador!

Deita o lanço com cautela,

 Que a sereia canta bela...
Mas cautela,

 Ó pescador!

Não se enrede a rede nela,
 
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
 
Ó pescador!

Pescador da barca bela,

 Inda é tempo, 
foge dela,
Foge dela,

 Ó pescador!

Almeida Garrett

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Poetas da Nossa Terra




O SOL NAS NOITES E O LUAR NOS DIAS
           

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.
           
E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.
           
Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.
           
Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

  Natália Correia         
O Sol nas Noites e o Luar nos Dias, II

terça-feira, 29 de março de 2011

Poetas da Nossa Terra

O Poeta



Trabalha agora na importação
     e exportação. Importa
metáforas, exporta alegorias.
     Podia ser um trabalhador
     por conta própria,
um desses que preenche
     cadernos de folha azul com
     números
de deve e haver. De facto, o que
     deve são palavras; e o que tem
é esse vazio de frases que lhe
     acontece quando se encosta
ao vidro, no inverno, e a chuva cai
     do outro lado. Então, pensa
que poderia importar o sol
     e exportar as nuvens.
     Poderia ser
um trabalhador do tempo. Mas,
     de certo modo, a sua
prática confunde-se com a de um
     escultor do movimento. Fere,
com a pedra do instante, o que 
     passa a caminho
     da eternidade;
suspende o gesto que sonha o céu;
     e fixa, na dureza da noite,
o bater de asas, o azul, a sábia
     interrupção da morte.

Nuno Júdice

domingo, 27 de março de 2011

Poetas da Nossa Terra





Ainda sabemos cantar,
só a nossa voz é que mudou:
somos agora mais lentos,
mais amargos,
e um novo gesto é igual ao que passou.

Um verso já não é a maravilha,
um corpo já não é a plenitude.



Eugénio de Andrade