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quinta-feira, 14 de abril de 2011

Poetas da Nossa Terra



Se Me Deixares, Eu Digo


  Se me deixares, eu digo
O contrario a toda a gente;
E, n'este mundo de enganos,
Falla verdade quem mente. 


Tu dizes que a minha boca
Já não acorda desejos,
Já não aquece outra boca,
Já não merece os teus beijos; 


Mas, tem cuidado commigo,
Não procures ser ausente:
- Se me deixares, eu digo
O contrario a toda a gente. 



Escrita da época                                       António Botto, in 'Canções'

domingo, 10 de abril de 2011

Poetas da Nossa Terra




Sou de vidro 


Meus amigos sou de vidro
Sou de vidro escurecido
Encubro a luz que me habita
Não por ser feia ou bonita
Mas por ter assim nascido
Sou de vidro escurecido
Mas por ter assim nascido
Não me atinjam não me toquem
Meus amigos sou de vidro

Sou de vidro escurecido
Tenho fumo por vestido
E um cinto de escuridão
Mas trago a transparência
Envolvida no que digo
Meus amigos sou de vidro
Por isso não me maltratem
Não me quebrem não me partam
Sou de vidro escurecido

Tenho fumo por vestido
Mas por assim ter nascido
Não por ser feia ou bonita
Envolvida no que digo
Encubro a luz que me habita 

Lidia Jorge 

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Poetas da Nossa Terra


Dia de Anos

Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Todos esses anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse...
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado...
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo? Coitado!

Não faça tal: porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa: que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los queira ou não queira!






segunda-feira, 4 de abril de 2011

Poetas da Nossa Terra





      BarcaBela


Pescador da barca bela,
 Onde vais pescar com ela,
Que é tão bela,

 Ó pescador?

Não vês que a última estrela
 
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,

 Ó pescador!

Deita o lanço com cautela,

 Que a sereia canta bela...
Mas cautela,

 Ó pescador!

Não se enrede a rede nela,
 
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
 
Ó pescador!

Pescador da barca bela,

 Inda é tempo, 
foge dela,
Foge dela,

 Ó pescador!

Almeida Garrett

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Poetas da Nossa Terra




O SOL NAS NOITES E O LUAR NOS DIAS
           

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.
           
E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.
           
Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.
           
Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

  Natália Correia         
O Sol nas Noites e o Luar nos Dias, II

terça-feira, 29 de março de 2011

Poetas da Nossa Terra

O Poeta



Trabalha agora na importação
     e exportação. Importa
metáforas, exporta alegorias.
     Podia ser um trabalhador
     por conta própria,
um desses que preenche
     cadernos de folha azul com
     números
de deve e haver. De facto, o que
     deve são palavras; e o que tem
é esse vazio de frases que lhe
     acontece quando se encosta
ao vidro, no inverno, e a chuva cai
     do outro lado. Então, pensa
que poderia importar o sol
     e exportar as nuvens.
     Poderia ser
um trabalhador do tempo. Mas,
     de certo modo, a sua
prática confunde-se com a de um
     escultor do movimento. Fere,
com a pedra do instante, o que 
     passa a caminho
     da eternidade;
suspende o gesto que sonha o céu;
     e fixa, na dureza da noite,
o bater de asas, o azul, a sábia
     interrupção da morte.

Nuno Júdice

domingo, 27 de março de 2011

Poetas da Nossa Terra





Ainda sabemos cantar,
só a nossa voz é que mudou:
somos agora mais lentos,
mais amargos,
e um novo gesto é igual ao que passou.

Um verso já não é a maravilha,
um corpo já não é a plenitude.



Eugénio de Andrade

sexta-feira, 25 de março de 2011

Poetas da Nossa Terra


Eu queria mais altas as estrelas,





Eu queria mais altas as estrelas,
Mais largo o espaço, o Sol mais criador,
Mais refulgente a Lua, o mar maior,
Mais cavadas as ondas e mais belas;

Mais amplas, mais rasgadas as janelas
Das almas, mais rosais a abrir em flor,
Mais montanhas, mais asas de condor,
Mais sangue sobre a cruz das caravelas!

E abrir os braços e viver a vida:
- Quanto mais funda e lúgubre a descida,
Mais alta é a ladeira que não cansa!

E, acabada a tarefa... em paz, contente,
Um dia adormecer, serenamente,
Como dorme no berço uma criança!






Florbela Espanca





quarta-feira, 23 de março de 2011

Poetas da Nossa Terra



Na margem de um rio
 
    
   São assim os amigos, frágeis, como dunas.
   Altas labaredas os consomem
   e dizem nomes, recados de amor.
    
   Nada os habita quando damos as mãos,
   os rostos recortados no frio azul
   para reparar o que nos une e o que nos afasta.
    
   São assim os amigos, vêm
   com uma ferida móvel entre os dedos
   junto de mim. Perdidos eu os encontro,
   aos amigos,ao que por ser frágil perdura
   como uma claridade um nome branco.
   
Francisco José Viegas, in
"Metade da VI da", Ed. Quasi, Lisboa, 2002.
    

domingo, 20 de março de 2011

Poetas da Nossa Terra



Quadras
Sem que o discurso eu pedisse,
Ele falou; e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
Do que disse não gostei.


Tu, que tanto prometeste
Enquanto nada podias,
Hoje que podes – esqueceste
Tudo quanto prometias…


Chegasses onde pudesses;
Mas nunca devias rir
Nem fingir que não conheces
Quem te ajudou a subir!


Os que bons conselhos dão
Às vezes fazem-me rir,
- Por ver que eles próprios são
Incapazes de os seguir.


Mesmo que te julguem mouco
Esses que são teus iguais,
Ouve muito e fala pouco:
Nunca darás troco a mais!


Entra sempre com doçura
A mentira, pr’a agradar;
A verdade entra mais dura,
Porque não quer enganar.


Se te censuram, estás bem,
P’ra que a sorte te perdure;
Mal de ti quando ninguém
Te inveje nem te censure!

Ant.Aleixo

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