DA SERPENTE
Provei o vinho de Cantanhede:
Que não bebem vinho tinto nem conhecem
o sabor das palavras mais amargas.
Há poetas fechados em gaiolas de oiro.
Portanto livres. Logo, felizes.
Há poetas eleitos.
Não se sabe por quem, é verdade,
mas são tão divinos como a chuva.
Tão finos como copos de cristal.
Tão reservados como os licores estrangeiros.
Tão confortáveis como o ar condicionado.
Há poetas que se amam a si mesmos.
Há poetas que escrevem de modo a não sujar os dedos.
Há poetas que nunca se misturam
para não se comprometerem com os homens.
Há poetas que comem o pão que o povo amassou.
*Mulher magra sem ser de fome, foge dela que te come.
*Mulher não se enceleira,- ou se casa ou vai ser freira.
*Mulher que do homem se fia no jurar, o que ganha é ter de chorar.

Quinta canção s/ Lisboa
L I S B O A
Lisboa tem um vestido azul feito de mar e guerra.
E cheira a laranjas maduras.
Quando as gaivotas trazem no bico os primeiros
pedaços de sol para acender o dia, Lisboa
deixa correr os cabelos pelo Tejo e o Povo pelas ruas.
À mesma hora, a coragem agita no sangue
duas grandes asas inquietas.
Por todas as janelas destruidas, já o mar entrou,
derrubando acácias, cantando hinos de espuma.
E porque toda a coragem é necessária,
toda a esperança é legítima.