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segunda-feira, 6 de julho de 2009
Joaquim Pessoa - 18

Prova Oral
O piercing na língua faz-me ponta,
melhora francamente o sexo oral.
Excita mais o pénis. Faz de conta
que sendo a mesma coisa é afinal
uma coisa diferente para melhor
e melhor fora às vezes que não fosse
porque queres a seguir fazer amor
e entretanto o orgasmo foi precoce.
De modo que me fico, dividido,
entre esse teu piercing atrevido
e a prática clássica e banal.
Mas, assim mesmo, posso afirmar:
que neste exame nunca vou deixar
que fiques dispensada da oral.
poema décimo oitavo dos Sonetos eróticos & irónicos & sarcásticos & satíricos & de amor & desamor & de bem & e de maldizer do poeta Joaquim PessoaLitexa Editora, 2008
poema décimo oitavo dos Sonetos eróticos & irónicos & sarcásticos & satíricos & de amor & desamor & de bem & e de maldizer do poeta Joaquim PessoaLitexa Editora, 2008
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sexta-feira, 5 de junho de 2009
Poema - Fernando Pessoa
Hoje vou colocar este Poema de Fernando Pessoa
que me foi enviado por Mail.
Não sei se é sonho, se realidade,
Se uma mistura de sonho e vida,
Aquela terra de suavidade
Que na ilha extrema do sol se olvida.
É a que ansiamos. Ali, ali
A vida é jovem e o amor sorri.
Talvez palmares inexistentes,
Aléias longínquas sem poder ser.
Sombra ou sossego dêem aos crentes
De que essa terra se pode ter.
Felizes, nós? Ah, talvez, talvez,
Naquela terra, daquela vez.
Mas já sonhada se desvirtua,
Só de pensá-la cansou pensar,
Sob os palmares, à luz da lua,
Sente-se o frio de haver luar.
Ah, nessa terra também, também
O mal não cessa, não dura o bem.
Não é com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou não,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no coração.
É em nós que é tudo. É ali, ali,
Que a vida é jovem e o amor sorri.
Fernando Pessoa
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quarta-feira, 27 de maio de 2009
ARY DOS SANTOS
Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!
Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.
Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:
Da fome já não se fala
--- é tão vulgar que nos cansa ---
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?
Do frio não reza a história
--- a morte é branda e letal ---
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?
E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
--- Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
--- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!
Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!
José Carlos Ary dos Santos
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segunda-feira, 25 de maio de 2009
ARY DOS SANTOS
(Ary morreu há 25 anos)
O Homem Das Castanhas
(Ary Dos Santos)
Na Praça da Figueira,
ou no Jardim da Estrela,
num fogareiro aceso é que ele arde.
Ao canto do Outono,à esquina do Inverno,
o homem das castanhas é eterno.
Não tem eira nem beira, nem guarida,
e apregoa como um desafio.
É um cartucho pardo a sua vida,
e, se não mata a fome, mata o frio.
Um carro que se empurra,
um chapéu esburacado,
no peito uma castanha que não arde.
Tem a chuva nos olhos e tem o ar cansado
o homem que apregoa ao fim da tarde.
Ao pé dum candeeiro acaba o dia,
voz rouca com o travo da pobreza.
Apregoa pedaços de alegria,
e à noite vai dormir com a tristeza.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais calor p'ra casa.
A mágoa que transporta a miséria ambulante,
passeia na cidade o dia inteiro.
É como se empurrasse o Outono diante;
é como se empurrasse o nevoeiro.
Quem sabe a desventura do seu fado?
Quem olha para o homem das castanhas?
Nunca ninguém pensou que ali ao lado
ardem no fogareiro dores tamanhas.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais amor p'ra casa.
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ou no Jardim da Estrela,
num fogareiro aceso é que ele arde.
Ao canto do Outono,à esquina do Inverno,
o homem das castanhas é eterno.
Não tem eira nem beira, nem guarida,
e apregoa como um desafio.
É um cartucho pardo a sua vida,
e, se não mata a fome, mata o frio.
Um carro que se empurra,
um chapéu esburacado,
no peito uma castanha que não arde.
Tem a chuva nos olhos e tem o ar cansado
o homem que apregoa ao fim da tarde.
Ao pé dum candeeiro acaba o dia,
voz rouca com o travo da pobreza.
Apregoa pedaços de alegria,
e à noite vai dormir com a tristeza.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais calor p'ra casa.
A mágoa que transporta a miséria ambulante,
passeia na cidade o dia inteiro.
É como se empurrasse o Outono diante;
é como se empurrasse o nevoeiro.
Quem sabe a desventura do seu fado?
Quem olha para o homem das castanhas?
Nunca ninguém pensou que ali ao lado
ardem no fogareiro dores tamanhas.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais amor p'ra casa.
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quarta-feira, 20 de maio de 2009
Joaquim Pessoa - Barr.1948

Quero-te para além das coisas justas
Quero-te para além das coisas justas
e dos dias cheios de grandeza.
A dor não tem significado quando ma roubam
as árvores,as ágatas, as águas.
O meu sol vem de dentro do teu corpo,
a tua voz respira a minha voz.
De quem são os ídolos, as culpas, as vírgulas
dos beijos? Discuto esta noite
apenas o pudor de preferir-te
entre as coisas vivas.
Joaquim Pessoa (n. no Barreiro a 22 Fev 1948; - )
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quinta-feira, 14 de maio de 2009
Joaquim Pessoa - 9
Mitos e Realidades
9
Tens a coisa pequena mas que importa
se a questão nunca é do tamanho.
Ela pode ser grande e já estar morta
ou pequena e campeã do arreganho.
Ao centímetro não há felicidade
que possa ser medida, pois então!
Para poder impôr-se, a coisa há-de,
muito mais que tamanho, ter tesão.
É tudo o que deves ter em conta.
O resto é conversa rasa e tonta
se não promoçãozinha pessoal.
Só tens de cumprir o compromisso.
E não te esqueças nunca para isso,
tomar o compromisso também vale.
poema nono dos Sonetos eróticos & irónicos & sarcásticos & satíricos & de amor & desamor & de bem & e de maldizer do poeta Joaquim Pessoa
Tens a coisa pequena mas que importa
se a questão nunca é do tamanho.
Ela pode ser grande e já estar morta
ou pequena e campeã do arreganho.
Ao centímetro não há felicidade
que possa ser medida, pois então!
Para poder impôr-se, a coisa há-de,
muito mais que tamanho, ter tesão.
É tudo o que deves ter em conta.
O resto é conversa rasa e tonta
se não promoçãozinha pessoal.
Só tens de cumprir o compromisso.
E não te esqueças nunca para isso,
tomar o compromisso também vale.
poema nono dos Sonetos eróticos & irónicos & sarcásticos & satíricos & de amor & desamor & de bem & e de maldizer do poeta Joaquim Pessoa
Litexa Editora, 2008
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sábado, 21 de março de 2009
Joaquim Pessoa
DA SERPENTE
VIAGEM
Provei o vinho de Cantanhede:
Provei o vinho de Cantanhede:
colheita de 67
Foi quando viajei para Trás-os-Montes
e os castanheiros
estavam em flor nas Beiras
e chovia desalmadamente.
Eu soube o teu nome durante essa viagem e que possivelmente
também as amendoeiras estariam floridas
no Vale da Vilariça
onde há uma primavera rigorosa e o rigor
era um vestido alegre tu disseste.
Espero por ti à saída do cinema.
Oh se tu viesses com a tua saia preta
e as tuas meias pretas e o teu ar sempre triste
beijer-te-ia as mãos e a boca e magoava
o teu peito contra o meu.
Gosto de acender os meus dedos na tua pele
como se fossem fósforos!
Já decidi: farei amor contigo
depois desta fita americana.
segunda-feira, 9 de março de 2009
Joaquim Pessoa
CANÇÃO DAS PROSTITUTAS DE LISBOA
Eu vi as raparigas do meu povo
que o meu povo fez tão magoadas.
Com os seios inchados de ternura
e doces olhos, doces como amêndoas.
Eu vi as raparigas magoadas
ilegítimas filhas do meu povo.
Nas esquinas eu vi a madrugada
com um cravo de amargura nos cabelos.
Eu vi as raparigas do meu povo
por entre o meu povo magoado.
Aqui. Em Lisboa. Sobre a mágoa.
Aonde o mar acaba e o mal começa.
CANÇÃO ERÓTICA
Alegria é este pássaro que voa
da minha boca à tua. É este beijo.
É ter-te nos meus braços toda nua.
Sentir-me vivo. E morto de desejo.
Alegria é este orgasmo. Esta loucura
de estar dentro de ti. E assim ficar.
Como se andasse perdido e à procura
de possuir-te.
E possuir-te devagar.....
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