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sexta-feira, 5 de julho de 2013

Poetas da Nossa Terra



MULHER NA NOITE

Ei-la que passa
Com sua magia,
Quebrando na noite,
A monotonia.
Bamboleando atravessa a rua,
Como uma estrela ou como a lua.
Deixa no ar um vago perfume,
Que tudo incendeia
Como se fora lume.
A rua pára ao vê-la passar,
O tempo suspenso
Com o seu andar.

Um carro que freia,
Uma pomba assustou,
Presa pela asa,
Ao beiral que a criou.

Na noite magoada,
Ilusão afastada,
A magia findou…


In “O Livro da Nena” – Fevereiro de 2008
Papiro Editora

Maria Irene Costa
N. 1951

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Poetas da Nossa Terra



Dá-me a Tua Mão


Dá-me a tua mão,
Deixa que a minha solidão
prolongue mais a tua
- para aqui os dois de mãos dadas
nas noites estreladas,
a ver os fantasmas a dançar na lua.

Dá-me a tua mão, companheira,
atá o Abismo da Ternura Derradeira.


José Gomes Ferreira

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Poetas da Nossa Terra



Não te amo

Não te amo, quero-te: o amor vem d'alma.
E eu n'alma tenho a calma,
A calma do jazigo.
Ai! Não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida - nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! Não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Almeida Garrett
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domingo, 23 de junho de 2013

Poetas da Nossa Terra




Envolve-me amorosamente


Envolve-me amorosamente
Na cadeia de teus braços
Como naquela tardinha...
Não tardes, amor ausente;
Tem pena da minha mágoa,
Vida minha!
Vai a penumbra desabrochando
Na alcova
Aonde estou aguardando
A tua vinda...
Não tardes, amor ausente!
Anoitece. O dia finda...
E as rosas desfalecendo
Vão caindo e murmurando:
- Queremos que Ele nos pise!
Mas, quando vem Ele, quando?...
Canções

António Boto

terça-feira, 18 de junho de 2013

Poetas da Nossa Terra





                                        Pérola solta

Sem que eu a esperasse,
Rolou aquela lágrima
No frio e na aridez da minha face.
Rolou devagarinho...,
Até à minha boca abriu caminho.
Sede! o que eu tenho é sede!
Recolhi-a nos lábios e bebi-a.
Como numa parede
Rejuvenesce a flor que a manhã orvalhou,
Na boca me cantou,
Breve como essa lágrima,
Esta breve elegia.

José Régio, Filho do Homem

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Poetas da Nossa Terra




Só as tuas mãos trazem os frutos

Só as tuas mãos trazem os frutos.
Só elas despem a mágoa
destes olhos, choupos meus,
carregados de sombra e rasos de água.

Só elas são
estrelas penduradas nos meus dedos.
- Ó mãos da minha alma,
flores abertas aos meus segredos.

Eugénio de Andrade,
 As mãos e os fruto
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sábado, 8 de junho de 2013

Poetas da Nossa Terra





                             Canção


Venham ver a maravilha
Do seu corpo juvenil!
 
O sol encharca-o de luz,
E o mar, de rojo, tem rasgos
De luxúria provocante.
 
Avanço. Procuro olhá-lho
Mais de perto... A luz é tanta
Que tudo em volta cintila
Num clarão largo e difuso... 

Anda nu - saltando e indo,
E sobre a areia da praia
Parece um astro fulgindo.

Procuro olhá-lo; - e os seus olhos 
Amedrontados, recusam
Fixar os meus... -  Entristeço... 

Mas nesse olhar fugidio -
Pude ver a eternidade
Do beijo que eu não mereço...

António Botto

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segunda-feira, 3 de junho de 2013

Poetas da Nossa Terra



A forca

Já que adorar-me dizes que não podes,
Imperatriz serena, alva e discreta,
Ai, como no teu colo há muita seta
E o teu peito é peito dum Herodes.

Eu antes que encaneçam meus bigodes
Ao meu mister de ama-te hei de pôr meta,
O coração mo diz – feroz profeta,
Que anões faz dos colossos lá de Rodes.

E a vida depurada no cadinho
Das eróticas dores do alvoroço,
Acabará na forca, num azinho,

Mas o que há-de apertar o meu pescoço
Em lugar de ser corda de bom linho
Será do teu cabelo um menos grosso.


Cesário Verde

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Poetas da Nossa Terra



Soneto já antigo

Olha, Daisy: quando eu morrer tu hás-de  
dizer aos meus amigos aí de Londres,  
embora não o sintas, que tu escondes  
a grande dor da minha morte. Irás de 
  
Londres pra York, onde nasceste (dizes...  
que eu nada que tu digas acredito),  
contar àquele pobre rapazito 
que me deu tantas horas tão felizes, 

Embora não o saibas, que morri... 
mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,  
nada se importará... Depois vai dar 

a notícia a essa estranha Cecily  
que acreditava que eu seria grande...  
Raios partam a vida e quem lá ande!

Álvaro de Campos

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sábado, 25 de maio de 2013

Poetas da Nossa Terra




Canção duma sombra

Ah, se não fosse a névoa da manhã 
E a velhinha janela, onde me vou 
Debruçar, para ouvir a voz das cousas,
          Eu não era o que sou.

Se não fosse esta fonte, que chorava, 
E como nós cantava e que secou... 
E este sol, que eu comungo, de joelhos,
          Eu não era o que sou.

Ah, se não fosse este luar, que chama 
Os espectros à vida, e se infiltrou, 
Como fluido mágico, em meu ser, 
          Eu não era o que sou.

E se a estrela da tarde não brilhasse; 
E se não fosse o vento, que embalou 
Meu coração e as nuvens, nos seus braços, 
          Eu não era o que sou.

Ah, se não fosse a noite misteriosa 
Que meus olhos de sombras povoou, 
E de vozes sombrias meus ouvidos, 
          Eu não era o que sou.

Sem esta terra funda e fundo rio, 
Que ergue as asas e sobe, em claro voo; 
Sem estes ermos montes e arvoredos, 
          Eu não era o que sou.

Teixeira de Pascoaes

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