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quinta-feira, 7 de março de 2013

Poetas da Nossa Terra



Dia Internacional da Mulher  8/3


  A Mulher
Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem saudosa duma imagem.
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca rir alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e sofrimento!

Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!

sexta-feira, 1 de março de 2013

Poetas da Nossa Terra


OLHOS  NEGROS


Por teus olhos negros, negros,
Trago eu negro o coração,
De tanto pedir-lhe amores...
E eles a dizer que não.
*
E mais não quero outros olhos,
Negros, negros como são;
Que os azuis dão muita esp'rança
Mas fiar-me eu neles, não.
*
Só negros, negros os quero;
Que, em lhes chegando a paixão,
Se um dia disserem sim..
.Nunca mais dizem que não.
*

in «Folhas Caídas e Outros Poemas»,
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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Poetas da Nossa Terra










Durmo
 dorme-me o prumo
encostado aos dentes de um cão
cravados na carne que me cai no chão.

O peito silente
é meu e já não sente,
nem amor nem nada,
nem dor nem nada,
nem nada.

Durmo
em fino arrumo,
pregado no contorno
e de cravos por adorno

Os cravos falam, gritam
e eu durmo calado.
Valdevinoxis

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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Poetas da Nossa Terra




modo de amar

 prometo ser-te fiel se mo fores
também, não é certo que mo venhas a
ser. por isso, já to perdoo

prefiro partir assim para o resto da
vida. assim, com os olhos abertos à
frustração e talvez à vulnerabilidade

não prevejo nada em concreto, acredita,
não tenho olhos para outras moças,
só o digo assim por ser verdade

que tarde ou cedo havemos de encontrar
nos outros motivos de inusitado
interesse, e depois, pergunto,

vale mais que acordemos um amor
sobreposto ao futuro, um amor agora
que tenha conhecimento do futuro

e não esperar mais nada senão
a verdade. a decadente verdade que
chega já depois dos primeiros beijos

valter hugo mãe, in 'contabilidade'
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sábado, 16 de fevereiro de 2013

Poetas da Nossa Terra




Poemas para a noite invariável


Gasto-me à espera da noite
impraticável

fiel
sugo os lábios da noite

invariável caio
nos poços da noite

Gasto-me à espera da noite alheia
amassada de gargalhadas doces e areia

Amor anoitecido vem
tecer-me um vestido
nocturno

Atraiçoo os anúncios luminosos
até a lua nova sabe a ausente
- e eu anavalhei-te com naifas de ansiedade -

Estou à espera da noite contigo
venham as pontes ruindo sob os barcos
venham em rodas de sol
os montes os túneis e deus

Estou à espera da noite contigo
livre de amor e ódio
livre
sem o cordão umbilical da morte
livre da morte

estou
à espera
da noite

Luiza Neto Jorge, A noite vertebrada
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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Poetas da Nossa Terra







Quem morre de tempo certo



Morrer de Amor é Assim
ao cabo de um certo tempo
é a rosa do deserto
que tem raízes no vento.

Qual a medida de um verso
que fale do meu amor?
Não me chega o universo
porque o meu verso é maior.

Morrer de amor é assim
como uma causa perdida.
Eu sei, e falo por mim,
vou morrer cheio de vida.

Digo-te adeus, vou-me embora,
que os versos que eu te escrever
nunca os lerás, sei agora
que nunca aprendeste a ler.

Neste dia que se enquadra
no tempo que vai passar,
termino mais esta quadra
feita ao gosto popular.


Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'

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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Poetas da Nossa Terra









Soneto de Amor


Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma...Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... - abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce! 

José Régio
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sábado, 2 de fevereiro de 2013

Poetas da Nossa Terra




NEM  SEMPRE


Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.

A cor das flores não é a mesma ao sol
de que quando uma nuvem passa,
ou quando entra a noite e as
flores são cor da sombra.

Mas quem olha bem, vê que
são as mesmas flores.

Fernando Pessoa
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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Poetas da Nossa Terra




Não adormeças - o vento ainda assobia no meu quarto







Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.

Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas úmidas e chás
com que em casa se cozinham perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.

O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono
se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.

Maria do Rosário Pedreira
de A Casa e o Cheiro dos Livros

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Poetas da Nossa Terra






  O Alentejo

Um céu abafadiço, um ar de ausência
esperando nuvens imóveis no céu baixo.

A terra, já das ceifas recolhida,
alonga-se manchada a flores tardias,

roxas, vermelhas, amarelas, brancas,
como penugem de esquecida Primavera.

Por entre os campos, os cordões rugosos
dos caminhos para toda a parte,

menos para os campos, que pacientemente evitam.
Na linha do horizonte próxima ou distante

conforme as ténues cristas da planura imensa,
um claror de céu, um tufo de arvoredo,
alternadamente se tocam e se afastam.

De súbito, num alto que a planície esconde,
as casas surgem brancas e compactas.

Como surgem, mergulham
na sombra poeirenta de azinhagas em ruínas.

Ainda se demora uma torre antiga,
escura, com ameias e janelas novas,
caiadas.

Um rio se advinha. Mas, de ao pé da ponte.
de novo apenas o ondular da terra,
um crespo recordar só de searas idas.
De relance   -  Jorge de Sena
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