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domingo, 21 de agosto de 2011

Poetas da Nossa Terra

Monumento em Santa Cruz



Um poema de João de Barros

CAMINHO

a Ferreira de Castro


Dizem aqueles tristes que julgaram
Ter vivido num dia toda a vida:
-- É tudo engano e a alma aborrecida
Morre dos ideais que alucinaram...

E aos outros gritam: -- Onde, esta subida
Atrás das ilusões que vos chamaram?
-- Loucos, parai... Só esses que pararam
Chegaram à verdade apetecida!

Mas nós -- nem os ouvimos, nós, os fortes
Que através de mil prantos e mil mortes,
Sabemos que a verdade ou a ilusão,

-- Ideia altiva ou corpo de mulher --
Nunca podem fugir a quem tiver
Beijos de amor e garras de ambição!


Humilde Plenitude, Lisboa, Livros do Brasil, 1951

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Poetas da Nossa Terra



Antes que seja tarde amigo

Antes que Seja Tarde Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.


Manuel da Fonseca, in "Poemas Dispersos"

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Poetas da Nossa Terra


Caminho sem pés e sem sonhos



Caminho sem pés e sem sonhos
só com a respiração e a cadência
da muda passagem dos sopros
caminho como um remo que se afunda.

os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes
para que a elevação e a profundidade se conjuguem.
avanço sem jugo e ando longe

de caminhar sobre as águas do céu.



Daniel Faria
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)


quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Poetas da Nossa Terra




Porque os outros se mascaram mas tu não

 Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não.
 
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão
Porque os outros se calam mas tu não.
 
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
 
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia Mello B. Andersen
Outubro 2000
 

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Poetas da Nossa Terra




valter hugo mãe nasceu em Angola, Saurimo, em 1971. Passou a infância em Paços de Ferreira, vive em Vila do Conde desde 1981. Licenciado em Direito, pós-graduado em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea. Vencedor do Prémio José Saramago com o romance o remorso de baltazar serapião, Quidnovi, 2006



valter hugo mãe

contra mim bate a esperta difusão

contra mim bate a esperta difusão
do tempo, a extensa confusão do
olhar, a vibrante galeria da
cor: o espaço. durante uma
pequena e qualquer loucura, não
me componho.
se não somos mudos, ficarei
surdo. nestas rochas onde o
sol se desleixa e persegue as
águias que escondem ninhos
secos.
e é quando tento agarrar
o sol que reparo ter
as mãos convexas

valter hugo mãe
estou escondido na cor amarga do fim da tarde
 

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Poetas da Nossa Terra


Seus Olhos


  Seus olhos - que eu sei pintar
O que os meus olhos cegou –
Não tinham luz de brilhar,
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do Destino.

Divino, eterno! - e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder,
Que, um só momento que a vi,
Queimar toda a alma senti...
Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi.

Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'
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terça-feira, 2 de agosto de 2011

Poetas da Nossa Terra




Dorme, meu amor


  Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega — o pior já passou há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão desvia os passos do medo. Dorme, meu amor 
— a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste e pode levantar-se como um pássaro assim que adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra não hão-de derrubar-me — eu já morri muitas vezes e é ainda da vida que tenho mais medo. 
Fecha os olhos agora e sossega — a porta está trancada; 
e os fantasmas da casa que o jardim devorou andam perdidos nas brumas que lancei ao caminho.
Por isso, dorme, meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui, de guarda aos pesadelos — a noite é um poema que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres

Maria do Rosário Pedreira

sábado, 30 de julho de 2011

Poetas da Nossa Terra






 (e)Ternamente

Se te amar é pecado
Eu quero ser pecador
Em cada beijo trocado
Ou cada gesto de amor. 


Pecar e ser amado
Nessa mesma proporção
Em que sendo o teu pecado
És a minha perdição.


E, ao amar-te, pecadora,
Coisa tão contra-natura,
Sonho ver-te sonhadora
Na fogueira da ternura.


O pecado original
Seria só converter
O nosso amor virtual
Numa noite de prazer.


Para um amor querubino
Mil noites seriam pouco.
Tenho escrito no destino:
Para sempre ou ficar louco.



Luis Eusébio 

terça-feira, 26 de julho de 2011

Poetas da Nossa Terra






Cesário Verde


De tarde

Naquele «pic-nic» de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas.

Cesário Verde


sábado, 23 de julho de 2011

Poetas da Nossa Terra

 


 A IMPOSSÍVEL SARÇA

 Que mais fazer
se as palavras queimam
e tanta coisa em fumo em tanta coisa
sarças ardentes do avesso
o fogo em labaredas que mais
fazer
Que mais fazer
se nem a água tantas vezes
descrita abençoada
mas demais e cristã
também castigo

Mas como nem castigo

nem as nuvens de fumo na sarça
do avesso
se tudo no avesso
das palavras

que não chegam

— mas cegam

Ana Luiza Amaral