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quarta-feira, 6 de julho de 2011

Poetas da Nossa Terra




CAMINHO

a Ferreira de Castro

Dizem aqueles tristes que julgaram
Ter vivido num dia toda a vida:
-- É tudo engano e a alma aborrecida
Morre dos ideais que alucinaram...

E aos outros gritam: -- Onde, esta subida
Atrás das ilusões que vos chamaram?
-- Loucos, parai... Só esses que pararam
Chegaram à verdade apetecida!

Mas nós -- nem os ouvimos, nós, os fortes
Que através de mil prantos e mil mortes,
Sabemos que a verdade ou a ilusão,

-- Ideia altiva ou corpo de mulher --
Nunca podem fugir a quem tiver
Beijos de amor e garras de ambição!


João de Barros

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Poetas da Nossa Terra



Soneto

Se, para possuir o que me é dado,
Tudo perdi e eu próprio andei perdido,
Se, para ver o que hoje é realizado,
Cheguei a ser negado e combatido.

Se, para estar agora apaixonado,
Foi necessário andar desiludido,
Alegra-me sentir que fui odiado
Na certeza imortal de ter vencido!

Porque, depois de tantas cicatrizes,
Só se encontra sabor apetecido
Àquilo que nos fez ser infelizes!

E assim cheguei à luz de um pensamento
De que afinal um roseiral florido
Vive de um triste e oculto movimento


 António Botto

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Poetas da Nossa Terra



Exaltação



Viver!... Beber o vento e o sol!... Erguer
Ao Céu os corações a palpitar!
Deus fez os nossos braços pra prender,
E a boca fez-se sangue pra beijar!

A chama, sempre rubra, ao alto, a arder!...
Asas sempre perdidas a pairar,
Mais alto para as estrelas desprender!...
A glória!... A fama!... O orgulho de criar!...

Da vida tenho o mel e tenho os travos
No lago dos meus olhos de violetas,
Nos meus beijos extáticos, pagãos!...

Trago na boca o coração dos cravos!
Boémios, vagabundos, e poetas:
- Como eu sou vossa Irmã, ó meus Irmãos!...

Florbela Espanca

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Poetas da Nossa Terra

Uma Nota:

(Acaba de ser Empossado como Secretário de Estado da Cultura no Novo Governo)





Na margem de um rio


São assim os amigos, frágeis, como dunas.

Altas labaredas os consomem

e dizem nomes, recados de amor.


Nada os habita quando damos as mãos,

os rostos recortados no frio azul

para reparar o que nos une e o que nos afasta.


São assim os amigos, vêm

com uma ferida móvel entre os dedos

juto de mim. Perdidos eu os encontro,

aos amigos,ao que por ser frágil perdura

como uma claridade um nome branco.



Francisco José Viegas, in

"Metade da VIda", Ed. Quasi, Lisboa, 2002.



quarta-feira, 15 de junho de 2011

Poetas da Nossa Terra



Pequenina



Eu bem sei que te chamam pequenina
E ténue como o véu solto na dança
Que és no juízo apenas a criança,
Pouco mais, nos vestidos, que a menina...

Que és o regato de água mansa e fina,
A folhinha do til que se balança,
O peito que em correndo logo cansa,
A fronte que ao sofrer logo se inclina...

Mas, filha, lá nos montes onde andei,
Tanto me enchi de angústia e de receio
Ouvindo do infinito os fundos ecos,

Que não quero imperar nem já ser rei
Senão tendo meus reinos em teu seio
E súbditos, criança, em teus bonecos!

Antero de Quental:


domingo, 12 de junho de 2011

Poetas da Nossa Terra


SANTOS POPULARES,

a tradição que se repete!




JUNHO É O MÊS DOS SANTOS POPULARES


SANTOS POPULARES

Santo António vem primeiro,
Logo depois, São João
E São Pedro é o terceiro
Dos santos com tradição.

Um, santo casamenteiro
- Por muitas bilhas que parta -,
Um outro, com seu cordeiro,
Seguidos do Patriarca.

Com arquinhos, com balões,
Com marchinhas e cantares,
Festejam os foliões;

Andam folguedos nos ares;
Há calor nos corações;
São as festas populares.

Vítor Cintra
No livro: DISPERSOS

***************************************
Santo António malandreco
Adora moças solteiras
Aquelas que são casadas
Não gostam de brincadeiras

No entanto este santinho
Defensor do casamento
Não brinca com coisas sérias
É santo de muito tento.

Na noite do dia doze
Toda a gente quer folgar
Entre bailes e comida
Toda a noite sem parar

Lucibei


quinta-feira, 9 de junho de 2011

Poetas da Nossa Terra



Chove. Nenhuma chuva cai...


Gifs by Oriza

Chove? Nenhuma chuva cai...
Então onde é que eu sinto um dia
Em que o ruído da chuva atrai
A minha inútil agonia?

Onde é que chove, que eu o ouço?
Onde é que é triste, ó claro céu?
eu quero sorrir-te, e não posso,
Ó céu azul, chamar-te de meu...

E o escuro ruído da chuva
É constante em meu pensamento.
Meu ser é a invisível curva
Traçada pelo som do vento...

E eis que ante o sol e o azul do dia,
Como se a hora me estorvasse,
Eu sofro... E a luz e a sua alegria
Cai aos meus pés como um disfarce.

Ah, na minha alma sempre chove.
Há sempre escuro dentro de mim.
Se escuto, alguém dentro de mim ouve
A chuva, como a voz de um fim...
 Fernando Pessoa


segunda-feira, 6 de junho de 2011

Poetas da Nossa Terra



MULHER-MAIO


Bom dia, minha amiga, digo em Maio
és uma rosa à beira de um tractor
neste campo de Abril onde não caio
a nossa sementeira já deu flor.

Bom dia minha amiga, eu sou um gaio
um pássaro liberto pela dor
tu és a companheira donde saio
mais limpo de mim próprio mais amor.

Bom dia meu amor estamos primeiro
neste tempo de Maio a tempo inteiro,
contra o tempo do ódio e do terror.

Se tu és camponesa eu sou mineiro.

Se carregas no ventre um pioneiro
Dentro de ti eu fui trabalhador.

José Carlos Ary dos Santo


quinta-feira, 2 de junho de 2011

Poetas da Nossa Terra



Um poema exemplar

Um poema exemplar: em linhas como:

«Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,

Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,

Saber que existe o mar e existem praias nuas,

Montanhas sem nome e planícies mais vastas

Que o mais vasto desejo,

E eu estou em ti fechada e apenas vejo

Os muros e as paredes e não vejo

Nem o crescer do mar nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida

E que arrastas pela sombra das paredes

A minha alma que fora prometida

Às ondas brancas e às florestas verdes»


(Sophia Andresen
«Cidade», Livro Sexto)
 

domingo, 29 de maio de 2011

Poetas da Nossa Terra





Retrato Ardente 


Entre os teus lábios
é que a loucura acode
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha. 


Eugénio de Andrade