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sábado, 9 de junho de 2012

Poetas da Nossa Terra




COM OS MORTOS


                       Os que amei, onde estão?
                                        Idos, dispersos,
arrastados no giro dos tufões,
Levados, como em sonho, entre visões,
Na fuga, no ruir dos universos... 
 .
E eu mesmo, com os pés também imersos
Na corrente e à mercê dos turbilhões,
Só vejo espuma lívida, em cachões,
E entre ela, aqui e ali, vultos submersos... 
 .
Mas se paro um momento, se consigo
Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
De novo, esses que amei vivem comigo, 
 .
Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,
Juntos no antigo amor, no amor sagrado,
Na comunhão ideal do eterno Bem.
.
Antero de Quental, in "Sonetos"

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Poetas da Nossa Terra




LOGOS  TU

Logos Tu que eu não vejo, e estás ao pé de mim
E, o que é mais, dentro de mim — que me rodeias
Com um nimbo de afectos e de idéias,
Que são o meu princípio, meio e fim...
.
Que estranho ser és tu (se és ser) que assim

Me arrebatas contigo e me passeias
Em regiões inominadas, cheias
De encanto e de pavor... de não e sim...
.
És um reflexo apenas da minha alma,

E em vez de te encarar com fronte calma,
Sobressalto-me ao ver-te, e tremo e exoro-te...
.
Falo-te, calas... calo, e vens atento...

És um pai, um irmão, e é um tormento
Ter-te a meu lado... és um tirano, e adoro-te! 

.
  Antero de Quental, in "Sonetos"

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Poetas da Nossa Terra



Pequenina



Eu bem sei que te chamam pequenina
E ténue como o véu solto na dança
Que és no juízo apenas a criança,
Pouco mais, nos vestidos, que a menina...

Que és o regato de água mansa e fina,
A folhinha do til que se balança,
O peito que em correndo logo cansa,
A fronte que ao sofrer logo se inclina...

Mas, filha, lá nos montes onde andei,
Tanto me enchi de angústia e de receio
Ouvindo do infinito os fundos ecos,

Que não quero imperar nem já ser rei
Senão tendo meus reinos em teu seio
E súbditos, criança, em teus bonecos!

Antero de Quental: