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quarta-feira, 15 de junho de 2011

Poetas da Nossa Terra



Pequenina



Eu bem sei que te chamam pequenina
E ténue como o véu solto na dança
Que és no juízo apenas a criança,
Pouco mais, nos vestidos, que a menina...

Que és o regato de água mansa e fina,
A folhinha do til que se balança,
O peito que em correndo logo cansa,
A fronte que ao sofrer logo se inclina...

Mas, filha, lá nos montes onde andei,
Tanto me enchi de angústia e de receio
Ouvindo do infinito os fundos ecos,

Que não quero imperar nem já ser rei
Senão tendo meus reinos em teu seio
E súbditos, criança, em teus bonecos!

Antero de Quental:


domingo, 12 de junho de 2011

Poetas da Nossa Terra


SANTOS POPULARES,

a tradição que se repete!




JUNHO É O MÊS DOS SANTOS POPULARES


SANTOS POPULARES

Santo António vem primeiro,
Logo depois, São João
E São Pedro é o terceiro
Dos santos com tradição.

Um, santo casamenteiro
- Por muitas bilhas que parta -,
Um outro, com seu cordeiro,
Seguidos do Patriarca.

Com arquinhos, com balões,
Com marchinhas e cantares,
Festejam os foliões;

Andam folguedos nos ares;
Há calor nos corações;
São as festas populares.

Vítor Cintra
No livro: DISPERSOS

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Santo António malandreco
Adora moças solteiras
Aquelas que são casadas
Não gostam de brincadeiras

No entanto este santinho
Defensor do casamento
Não brinca com coisas sérias
É santo de muito tento.

Na noite do dia doze
Toda a gente quer folgar
Entre bailes e comida
Toda a noite sem parar

Lucibei


quinta-feira, 9 de junho de 2011

Poetas da Nossa Terra



Chove. Nenhuma chuva cai...


Gifs by Oriza

Chove? Nenhuma chuva cai...
Então onde é que eu sinto um dia
Em que o ruído da chuva atrai
A minha inútil agonia?

Onde é que chove, que eu o ouço?
Onde é que é triste, ó claro céu?
eu quero sorrir-te, e não posso,
Ó céu azul, chamar-te de meu...

E o escuro ruído da chuva
É constante em meu pensamento.
Meu ser é a invisível curva
Traçada pelo som do vento...

E eis que ante o sol e o azul do dia,
Como se a hora me estorvasse,
Eu sofro... E a luz e a sua alegria
Cai aos meus pés como um disfarce.

Ah, na minha alma sempre chove.
Há sempre escuro dentro de mim.
Se escuto, alguém dentro de mim ouve
A chuva, como a voz de um fim...
 Fernando Pessoa


segunda-feira, 6 de junho de 2011

Poetas da Nossa Terra



MULHER-MAIO


Bom dia, minha amiga, digo em Maio
és uma rosa à beira de um tractor
neste campo de Abril onde não caio
a nossa sementeira já deu flor.

Bom dia minha amiga, eu sou um gaio
um pássaro liberto pela dor
tu és a companheira donde saio
mais limpo de mim próprio mais amor.

Bom dia meu amor estamos primeiro
neste tempo de Maio a tempo inteiro,
contra o tempo do ódio e do terror.

Se tu és camponesa eu sou mineiro.

Se carregas no ventre um pioneiro
Dentro de ti eu fui trabalhador.

José Carlos Ary dos Santo


quinta-feira, 2 de junho de 2011

Poetas da Nossa Terra



Um poema exemplar

Um poema exemplar: em linhas como:

«Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,

Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,

Saber que existe o mar e existem praias nuas,

Montanhas sem nome e planícies mais vastas

Que o mais vasto desejo,

E eu estou em ti fechada e apenas vejo

Os muros e as paredes e não vejo

Nem o crescer do mar nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida

E que arrastas pela sombra das paredes

A minha alma que fora prometida

Às ondas brancas e às florestas verdes»


(Sophia Andresen
«Cidade», Livro Sexto)
 

domingo, 29 de maio de 2011

Poetas da Nossa Terra





Retrato Ardente 


Entre os teus lábios
é que a loucura acode
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha. 


Eugénio de Andrade 


quinta-feira, 26 de maio de 2011

Poetas da Nossa Terra

II Concurso de Poesia da UTIA 

Maria do Espírito Santo obteve o 2º Prémio em Poesia Livre.






domingo, 22 de maio de 2011

Poetas da Nossa Terra



EU


 Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou! 

Florbela Espanca 

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Poetas da Nossa Terra



Este Inferno de Amar
Este inferno de amar — como eu amo! —
Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida — e que a vida destrói —
Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há-de ela apagar?




Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... — foi um sonho —
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?



Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? — Não sei;
Mas nessa hora a viver comecei...



Almeida Garrett

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Poetas da Nossa Terra





Primeiro a tua mão sobre o meu seio.




Primeiro a tua mão sobre o meu seio.
Depois o pé - o meu - sobre o teu pé.
Logo o roçar urgente do joelho
e o ventre mais à frente na maré.

É a onda do ombro que se instala.
É a linha do dorso que se inscreve.
A mão agora impõe, já não embala
mas o beijo é carícia, de tão leve.

O corpo roda: quer mais pele, mais quente.
A boca exige: quer mais sal, mais morno.
Já não há gesto que se não invente,
ímpeto que não ache um abandono.

Então já a maré subiu de vez.
É todo o mar que inunda a nossa cama.
Afogados de amor e de nudez
Somos a maré alta de quem ama

Por fim o sono calmo, que não é
Senão ternura, intimidade, enleio:
O meu pé descansando no teu pé,
A tua mão dormindo no meu seio.


in «Cem  Poemas Portugueses no Feminino»,