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domingo, 12 de julho de 2015

Nossos Poetas noutra versão

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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Parar para Pensar




Parar para pensar....



Mal nascemos, sem dar conta percebemos
Que o nosso tempo começou e, por agora, não vai parar
E devagar gatinhamos, depois passo a passo caminhamos
Caindo, sorrindo, chorando mas, sem parar para pensar

E à medida que o tempo passa, damos conta que crescemos
E à nossa volta, a novidades nos fazem habituar
Brincamos, sorrimos, dormimos e até corremos
Na ânsia de aprender mas, sem parar para pensar


Já na escola, de outra forma aprendemos
E mais informação põe o cérebro a funcionar
Com coisas novas que em grupo desenvolvemos
Onde nem sequer há tempo de, parar para pensar


Anos depois surgem venos de mudanças
E o corpo torna-se diferente e ímpar
E vamos fazendo as nossas próprias experiências
Muitas vezes, sem parar para pensar


E anos mais tarde quando nos tornamos grandes
Surge a nostalgia e a vontade de voltar
E é nesses tempos mais ou menos distantes
Que nos lembramos de, parar para pensar


E agora, numa competição e sempre a correr
Desde o nosso brusco acordar até ao deitar
Vemos em pleno a nossa vida a amadurecer
E por isso não temos tempo de, parar para pensar


E corremos de manhã para o ganha-pão
Continuamos a corrida ao almoço e ao jantar
E a correr vamos por um sonho ou por alguém
Onde poucas vezes, paramos para pensar


Depois, vivemos a vida para os outros
Porque acreditamos e confiamos na palavra Amar
Mas, até esses que no fundo são bem poucos
Ás vezes também não nos deixam, parar para pensar


Lutamos depois por pensamentos e ideais
Aqueles sobre os quais ainda ousamos sonhar
Voltamos a cair, levantamo-nos, e cada vez mais
Nos vai faltando o tempo de, parar para pensar


Em horas de revolta contra o que não está certo
Ganhamos forças e coragem para denunciar
Mas, os medos da ruptura pairam bem perto
E silenciam o nosso, parar para pensar


E quando os que nos amam, nos vão deixando
Um a seguir ao outro e ás vezes até sem contar
Nesses tempos de dor choramos, meditando
Que muitas vezes por eles, não paramos para pensar


Os anos vão-se passando e os tempos mudando
O corpo torna-se frágil, com pouca força para andar
E empurram-nos para um qualquer canto hediondo
Onde não ouvem o nosso delicado, parar para pensar

Mas, um dia acaba a corda do nosso relógio
Chega também o nosso tempo de findar
É nessas horas que, dizem os entendidos
Enfim, finalmente estamos parados para pensar !

Paulo A. Santos - 2004 


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sábado, 28 de dezembro de 2013

Poetas da Nossa Terra





ENTRE O LUAR E A FOLHAGEM

Entre o luar e a folhagem, 
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre o ser noite e haver aragem
Passa um segredo.
Segue-o minha alma na passagem.

Ténue lembrança ou saudade,
Princípio ou fim do que não foi, 
Não tem lugar, não tem verdade,
Atrai e dói.
Segue-o meu ser em liberdade.

Vazio encanto ébrio de si,
Tristeza ou alegria o traz?
O que sou dele a quem sorri?
Nada é nem faz.
Só de segui-lo me perdi.

Cancioneiro

In “Fernando Pessoa – Antologia Poética

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Poetas da Nossa Terra




 SE PARTIRES




Se partires, não me abraces – a falésia que se encosta
uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre
e sonha com viagens na pele salgada das ondas.

Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão
das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;
mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,
porque o ar que respiras junto de mim é como um vento
a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces –

o teu perfume preso à minha roupa é um lento veneno
nos dias sem ninguém – longe de ti, o corpo não faz
senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta
as embarcações perdidas nos gritos do mar); e o rosto
espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.
Se me abraçares, não partas.


Maria do Rosário Pedreira

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Poetas da Nossa Terra





QUANDO SE VÊ DO MAL O QUE SE NÃO VIA DANTES

Se como haveis tardado, desenganos,
Vindes hoje de novo apercebidos,
A troco de vos ver tão prevenidos,
Dou-vos por bem tardados tantos anos.

Tardastes; e entretanto estes tiranos
Casos de Amor roubaram-me os sentidos.
Se alcançá-los quereis, bem que são idos,
Buscai-os pelo rastro dos meus danos.

Oh, segui-os, prendei-os, porque logo
Teme que foge, quem procura, alcança,
Pois é peso o temor, o gosto é vento.

E para quando os alcanceis vos rogo,
Não que façais me tornem a esperança,
Mas que sequer me deixem o escarmento.



Obras Métricas

In “Breve Antologia Poética do Período Barroco”

domingo, 15 de dezembro de 2013

Poetas da Nossa Terra



UNS


Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia, 
Esta é a hora, este o momento, isto 
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe 
O dia, porque és ele.


Odes de Ricardo Reis

In “Fernando Pessoa – Antologia Poética”

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Poetas da Nossa Terra






Ofereço-te palavras

Se terminar este poema, partirás. Depois da

mordedura vã do meu silêncio e das pedras
que te atirei ao coração, a poesia é a última
coincidência que nos une. Enquanto escrevo
este poema, a mesma neblina que impede a
memória límpida dos sonhos e confunde os
navios ao retalharem um mar desconhecido



está dentro dos meus olhos – porque é difícil

olhar para ti neste preciso instante sabendo que

não estarias aqui se eu não escrevesse. E eu, que



continuo a amar-te em surdina com essa inércia

sóbria das montanhas, ofereço-te palavras, e não

beijos, porque o poema é o único refúgio onde

podemos repetir o lume dos antigos encontros.



Mas agora pedes-me que pare, que fique por aqui,

que apenas escreva até ao fim mais esta página

(que, como as outras, será somente tua – esse



beijo que já não desejas dos meus lábios). E eu, que

aprendi tudo sobre as despedidas porque a saudade

nos faz adultos para sempre, sei que te perderei



em qualquer caso: se terminar o poema, partirás;

e, no entanto, se o interromper, desvanecer-se-á

a última coincidência que nos une.





Maria do Rosário Pedreira

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Poetas da Nossa Terra


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DAQUI DESTE PAÍS



DAQUI DESTE PAÍS DO MEU DOER TE ESCREVO MEU AMOR
DAQUI DA MINHA DOR QUEM BEM ME QUER
ESTÁ LONGE MEU AMOR DAQUI DESTE CINZENTO
DE LATA E VENTO TE SOFRO EM CADA DIA AMOR
AQUI NESTE RELENTO NESTE TORMENTO
O PÃO NASCE SEM SUOR
AQUI NESTES ANDAIMES DE CHUVA
NÃO NASCEM CACHOS DE UVA NÃO BEBO O VINHO
QUE AMBOS PISÁMOS SÓ BEBO O ACENO QUE TROCÁMOS
AQUI SEMPRE ESTRANGEIRO SEM BARCA BELA
SEM NAU DAS DESCOBERTAS
AQUI DÓI O AMOR DÓI A SAUDADE
SÃO FERIDAS SEMPRE ABERTAS
DAQUI DESTE PAÍS COM ESTAS LETRAS
INVENTO A ALEGRIA AMOR
DAQUI DESTE PAÍS COM ESTAS LÁGRIMAS
TE ESCREVO E CONTO A MINHA DOR
AQUI EM ALAMEDAS DE FUMO
TIJOLOS E FIOS DE PRUMO NÃO NASCE O SOL
AQUI COM ESTE CÉU A SANGRAR
COM O TEU BORDADO A GRITAR NO MEU LENÇOL
AQUI COM ESTE INÚTIL LUAR ABERTO DE PAR EM PAR
NESTA JANELA DESTE PAÍS TE DIGO - ATÉ UM DIA AMOR


Mário Contumélias


sábado, 30 de novembro de 2013

Poetas da Nossa Terra






ALIMENTO IMPERFEITO

Possa eu tornar-me pedra,
da pedra areia, da rocha
grão, do diamante brilho.

Endureça eu como concha
de água matricial, minério
de cobre, coração cristalino.

Seja eu alimento imperfeito
de clareza perfeita, mar denso,
condensado, astral e puro.

Seja eu mel coagulado
d’orvalho e ouro vivo.


In “Adornos”
Editorial Dom Quixote

Ana Marques Gastão

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Poetas da Nossa Terra





PRECE

Senhor, deito-me na cama
Coberto de sofrimento;
E a todo o comprimento
Sou sete palmos de lama:
Sete palmos de excremento
Da terra-mãe que me chama.

Senhor, ergo-me do fim
Desta minha condição
Onde era sim, digo não
Onde era não, digo sim;
Mas não calo a voz do chão
Que grita dentro de mim.

Senhor, acaba comigo
Antes do dia marcado;
Um golpe bem acertado,
O tiro de um inimigo.....
Qualquer pretexto tirado
Dos sarcasmos que te digo.

Poema escrito a 11/12/1934

Miguel Torga