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terça-feira, 9 de julho de 2013

Poetas da Nossa Terra



És  Linda


És linda. E nem sabes quantos pedaços de beleza tive de juntar para chegar a esta conclusão. Para te construir, tive de misturar a conspiração das searas com a tristeza do choupo, a inquietação da cotovia com o cheiro lavado do vento do ocidente. E a firmeza repartida dos livros, com a alegria explosiva dos miosótis e a luz escura das violetas. Juntei depois um pouco de ansiedade das estrelas, a paciência das casas à beira da falésia, a espuma da terra, o respirar do sul, as perguntas de gesso que se fazem à lua. Acrescentei-lhe a canção das margens e pequenos pedaços da angústia do olhar. Não esqueci a intimidade do frio nem a dor branca que habita o coração dos muros. Por fim, deitei na tua pele o sono dos alperces, aos teus músculos prometi a violência das cascatas, no teu sexo acordei a memória do universo.
A tua beleza está no meu desejo, nos meus olhos, na minha desigual maneira de te amar. És linda, repito. Mas tenta não encarar o que te digo como um elogio.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'


sexta-feira, 5 de julho de 2013

Poetas da Nossa Terra



MULHER NA NOITE

Ei-la que passa
Com sua magia,
Quebrando na noite,
A monotonia.
Bamboleando atravessa a rua,
Como uma estrela ou como a lua.
Deixa no ar um vago perfume,
Que tudo incendeia
Como se fora lume.
A rua pára ao vê-la passar,
O tempo suspenso
Com o seu andar.

Um carro que freia,
Uma pomba assustou,
Presa pela asa,
Ao beiral que a criou.

Na noite magoada,
Ilusão afastada,
A magia findou…


In “O Livro da Nena” – Fevereiro de 2008
Papiro Editora

Maria Irene Costa
N. 1951

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Poetas da Nossa Terra



Dá-me a Tua Mão


Dá-me a tua mão,
Deixa que a minha solidão
prolongue mais a tua
- para aqui os dois de mãos dadas
nas noites estreladas,
a ver os fantasmas a dançar na lua.

Dá-me a tua mão, companheira,
atá o Abismo da Ternura Derradeira.


José Gomes Ferreira

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Poetas da Nossa Terra



Não te amo

Não te amo, quero-te: o amor vem d'alma.
E eu n'alma tenho a calma,
A calma do jazigo.
Ai! Não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida - nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! Não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Almeida Garrett
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domingo, 23 de junho de 2013

Poetas da Nossa Terra




Envolve-me amorosamente


Envolve-me amorosamente
Na cadeia de teus braços
Como naquela tardinha...
Não tardes, amor ausente;
Tem pena da minha mágoa,
Vida minha!
Vai a penumbra desabrochando
Na alcova
Aonde estou aguardando
A tua vinda...
Não tardes, amor ausente!
Anoitece. O dia finda...
E as rosas desfalecendo
Vão caindo e murmurando:
- Queremos que Ele nos pise!
Mas, quando vem Ele, quando?...
Canções

António Boto

terça-feira, 18 de junho de 2013

Poetas da Nossa Terra





                                        Pérola solta

Sem que eu a esperasse,
Rolou aquela lágrima
No frio e na aridez da minha face.
Rolou devagarinho...,
Até à minha boca abriu caminho.
Sede! o que eu tenho é sede!
Recolhi-a nos lábios e bebi-a.
Como numa parede
Rejuvenesce a flor que a manhã orvalhou,
Na boca me cantou,
Breve como essa lágrima,
Esta breve elegia.

José Régio, Filho do Homem

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Poetas da Nossa Terra




Só as tuas mãos trazem os frutos

Só as tuas mãos trazem os frutos.
Só elas despem a mágoa
destes olhos, choupos meus,
carregados de sombra e rasos de água.

Só elas são
estrelas penduradas nos meus dedos.
- Ó mãos da minha alma,
flores abertas aos meus segredos.

Eugénio de Andrade,
 As mãos e os fruto
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sábado, 8 de junho de 2013

Poetas da Nossa Terra





                             Canção


Venham ver a maravilha
Do seu corpo juvenil!
 
O sol encharca-o de luz,
E o mar, de rojo, tem rasgos
De luxúria provocante.
 
Avanço. Procuro olhá-lho
Mais de perto... A luz é tanta
Que tudo em volta cintila
Num clarão largo e difuso... 

Anda nu - saltando e indo,
E sobre a areia da praia
Parece um astro fulgindo.

Procuro olhá-lo; - e os seus olhos 
Amedrontados, recusam
Fixar os meus... -  Entristeço... 

Mas nesse olhar fugidio -
Pude ver a eternidade
Do beijo que eu não mereço...

António Botto

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segunda-feira, 3 de junho de 2013

Poetas da Nossa Terra



A forca

Já que adorar-me dizes que não podes,
Imperatriz serena, alva e discreta,
Ai, como no teu colo há muita seta
E o teu peito é peito dum Herodes.

Eu antes que encaneçam meus bigodes
Ao meu mister de ama-te hei de pôr meta,
O coração mo diz – feroz profeta,
Que anões faz dos colossos lá de Rodes.

E a vida depurada no cadinho
Das eróticas dores do alvoroço,
Acabará na forca, num azinho,

Mas o que há-de apertar o meu pescoço
Em lugar de ser corda de bom linho
Será do teu cabelo um menos grosso.


Cesário Verde

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Poetas da Nossa Terra



Soneto já antigo

Olha, Daisy: quando eu morrer tu hás-de  
dizer aos meus amigos aí de Londres,  
embora não o sintas, que tu escondes  
a grande dor da minha morte. Irás de 
  
Londres pra York, onde nasceste (dizes...  
que eu nada que tu digas acredito),  
contar àquele pobre rapazito 
que me deu tantas horas tão felizes, 

Embora não o saibas, que morri... 
mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,  
nada se importará... Depois vai dar 

a notícia a essa estranha Cecily  
que acreditava que eu seria grande...  
Raios partam a vida e quem lá ande!

Álvaro de Campos

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