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domingo, 14 de abril de 2013

Poetas da Nossa Terra











das paixões só conheci as mais pequenas
aquelas que nasciam na palma das mãos e desapareciam

com a água do mar. mas não eram paixões por barcos

ou pássaros ou cabelos teus: só uma fenda no céu

verde e azul e uma casa desabitada


das paixões só conheci as mais pequenas

como se no minuto imediato eu tivesse de esperar a morte

ou as aves no seu regresso do norte

de resto, implorei aos deuses uma morada branca

onde nenhum peixe chegasse antes do alvorecer

onde nenhum nome coubesse, onde nenhum olhar entrasse

implorei aos deuses o seu encantamento

não o seu dó. foi então que, das paixões, das mais pequenas

surgiram os teus olhos tão verdes e tão brancos

que só eu neles poderia poisar como um pescador

sem mar onde navegar ou lavar o rosto.


Francisco José Viegas,"As Imagens"

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terça-feira, 9 de abril de 2013

Poetas da Nossa Terra





Quem diz que Amor é falso ou enganoso


Quem diz que Amor é falso ou enganoso,
Ligeiro, ingrato, vão desconhecido,
Sem falta lhe terá bem merecido
Que lhe seja cruel ou rigoroso.

Amor é brando, é doce, e é piedoso.
Quem o contrário diz não seja crido;
Seja por cego e apaixonado tido,
E aos homens, e inda aos Deuses, odioso.

Se males faz Amor em mim se vêem;
Em mim mostrando todo o seu rigor,
Ao mundo quis mostrar quanto podia.

Mas todas suas iras são de Amor;
Todos os seus males são um bem,
Que eu por todo outro bem não trocaria.

Luís de Camões

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Poetas da Nossa Terra




O nosso amor morreu... Quem o diria!
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
Ceguinha de te ver, sem ver a conta,
Do tempo que passava, que fugia!

Bem estava a sentir que ele morria...
E outro clarão, ao longe já desponta!
Um engano que morreu...e logo aponta.
A luz doutra miragem fugidia...

Eu bem sei, meu amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer,
E são precisos sonhos para partir.

Eu bem sei, meu amor, que era preciso
fazer do amor que parte o claro riso
De outro amor impossível que há-de vir.!!!

Florbela Espanca

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sábado, 30 de março de 2013

Poetas da Nossa Terra






Gosto das mulheres que envelhecem
  Gosto das mulheres que envelhecem,
com a pressa das suas rugas, os cabelos
caídos pelos ombros negros do vestido,
o olhar que se perde na tristeza
dos reposteiros. Essas mulheres sentam-se
nos cantos das salas, olham para fora,
para o átrio que não vejo, de onde estou,
embora adivinhe aí a presença de
outras mulheres, sentadas em bancos
de madeira, folheando revistas
baratas. As mulheres que envelhecem
sentem que as olho, que admiro os seus gestos
lentos, que amo o trabalho subterrâneo
do tempo nos seus seios. Por isso esperam
que o dia corra nesta sala sem luz,
evitam sair para a rua, e dizem baixo,
por vezes, essa elegia que só os seus lábios
podem cantar.
Nuno Júdice
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terça-feira, 26 de março de 2013

Poetas da Nossa Terra




REALIDADE
 
Em ti o meu olhar fez-se alvorada
a minha voz fez-se gorgeio de ninho.
E a minha rubra boca apaixonada
Teve a frescura pálida do linho...
Embriagou-me o teu beijo como um vinho.
Fulgo de Espanha,em taça cinzelada...
E a minha cabeleireira desatada
Pôs a teus pés a sombra dum caminho...

Minhas pálpebras são de cor verbena,
Eu tenho os olhos garços, sou morena,
E para te encontrar foi que eu nasci...
Tens sido fora o meu desejo
E agora, que te falo, que te vejo,
Não sei se te encontrei..
Se te perdi...

Florbela Espanca 

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sexta-feira, 22 de março de 2013

Poetas da Nossa Terra





                            O Amor Quando se Revela


O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar... 

Fernando Pessoa 
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segunda-feira, 18 de março de 2013

Poetas da Nossa Terra




Quem diz que Amor é falso ou enganoso


Quem diz que Amor é falso ou enganoso,
Ligeiro, ingrato, vão desconhecido,
Sem falta lhe terá bem merecido
Que lhe seja cruel ou rigoroso.

Amor é brando, é doce, e é piedoso.
Quem o contrário diz não seja crido;
Seja por cego e apaixonado tido,
E aos homens, e inda aos Deuses, odioso.

Se males faz Amor em mim se vêem;
Em mim mostrando todo o seu rigor,
Ao mundo quis mostrar quanto podia.

Mas todas suas iras são de Amor;
Todos os seus males são um bem,
Que eu por todo outro bem não trocaria. 


 Luís de Camões 
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quinta-feira, 14 de março de 2013

Poetas da Nossa Terra




       Passo às Vezes na cama um dia inteiro



De papo para o ar, como um madraço ...
Fumando qual filósofo ou palhaço,
 Sem mulher... sem cuidados... sem dinheiro!
É de manhã então que me é fagueiro
Ouvir trinar no cristalino espaço
Um pregão mais macio que um regaço,
Que se esvai a carpir... como um boieiro...
De manhã é que passa a leiteirinha,
Com seu pregão chilrado de andorinha,
Passam varinas de gargantas sãs...
E ao escutar tais cantantes semifusas, 

Eu creio que oiço ao longe as frescas Musas,
  A vender uvas e à pregoar maçãs.


 António Gomes Leal (1848-1921
Editado por: nicoladavid

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domingo, 10 de março de 2013

Poetas da Nossa Terra




Vaidade, Tudo Vaidade! 


 Vaidade, meu amor, tudo vaidade!
Ouve: quando eu, um dia, for alguem,
Tuas amigas ter-te-ão amizade,
(Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm.

Vaidade é o luxo, a gloria, a caridade,
Tudo vaidade! E, se pensares bem,
Verás, perdoa-me esta crueldade,
Que é uma vaidade o amor de tua mãe...

Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna
E eu vi-me só no mar com minha escuna,
E ninguem me valeu na tempestade!

Hoje, já voltam com seu ar composto,
Mas eu, ve lá! eu volto-lhes o rosto...
E isto em mim não será uma vaidade? 


António Nobre, in 'Só' Tema(s): Vaidade 

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quinta-feira, 7 de março de 2013

Poetas da Nossa Terra



Dia Internacional da Mulher  8/3


  A Mulher
Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem saudosa duma imagem.
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca rir alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e sofrimento!

Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!