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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

POETAS DA NOSSA TERRA





POEMAS PARA A NOITE INVARIÁVEL

IV

Gasto-me à espera da noite
impraticável

fiel
sugo os lábios da noite

invariável caio
nos poços da noite

Gasto-me à espera da noite alheia
amassada de gargalhadas doces e areia

Amor anoitecido vem
tecer-me um vestido
nocturno

Atraiçoo os anúncios luminosos
até a lua nova sabe a ausente
- e eu anavalhei-te com naifas de ansiedade -

Estou à espera da noite contigo
venham as pontes ruindo sob os barcos
venham em rodas de sol
os montes os túneis e deus

Estou à espera da noite contigo
livre de amor e ódio
livre
sem o cordão umbilical da morte
livre da morte

estou
à espera
da noite

Luiza Neto Jorge, A noite vertebrada
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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Poetas da Nossa Terra





MÚSICAS

Desculpo-me dos outros com o sono da minha filha.
E deito-me a seu lado,
a cabeça em partilha de almofada.

Os sons dos outros lá fora em sinfonia
são violinos agudos bem tocados.
Eu é que me desfaço dos sons deles
e me trabalho noutros sons.

Bartók em relação ao resto.

A minha filha adormecida.
Subitamente sonho-a não em desencontro como eu
das coisas e dos sons, orgulhoso
e dorido Bartók.

Mas nunca como eles
bem tocada
por violinos certos.

*
Ana L. Amaral
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domingo, 18 de novembro de 2012

Poetas da Nossa Terra






Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!
 Fernando Pessoa
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quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Poetas da Nossa Terra






MAIS NADA

Antes de morrer não vou dizer nada
porque nada iria servir para nada.

O que as outras pessoas querem que eu diga
já o disse.

O que os amigos querem que eu faça
já o fiz.

Só não lhes disse
que ao morrer não iria dizer ou fazer mais nada
porque não há nada mais ridículo
que dizer ou fazer o que quer que seja
ao morrer.

Vieira Calado
inédito lido no blogue do poeta
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sábado, 10 de novembro de 2012

Poetas da Nossa Terra



Que mistério, a começar pelo título, envolveria esse soneto? O tempo ou algum incidente teria inutilizado parte do poema? A própria Florbela Espanca o teria deixado assim, “inacabado”? Seus editores ou os pósteros, extraindo parte do primeiro verso conhecido do soneto inconcluso, teriam batizado o soneto de “Eu não sou de ninguém...” ou tal título teria sido dado pela própria poetisa?! Impossível se me afigura saber o que teria, de fato, acontecido. Ei-lo em sua versão original, conforme o conhecemos:

“Eu não sou de ninguém...

...  ...  ...  ...  ...  ...  ...  ...  ...  ...  ...  ...  ...  ...  ...
...  ...  ...  ...  ...  ...  ...  ...  ...  ...  ...  ...  ...  ...  ...

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...  ...  ...  ...  ...  ...  ...  ...  ...  ...  ...  ...  ...  ...  ...
 
Eu não sou de ninguém!... Quem me quiser
Há de ser luz do sol em tardes quentes;

Nos olhos de água clara há de trazer

As fúlgidas pupilas dos videntes!

Há de ser seiva no botão repleto,
Voz no murmúrio do pequeno inseto,

Vento que enfuna as velas sobre os mastros!...

Há de ser Outro e Outro num momento!
Força viva, brutal, em movimento,

Astro arrastando catadupas de astros!”

Florbela Espanca 

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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Poetas da Nossa Terra








Mais do que um sonho: comoção!
Sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.

E recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.

Mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Poetas da Nossa Terra





Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz-
Ter por vida a sepultura.
...

Grécia, Roma, Cristandade,
Europa - os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?

domingo, 28 de outubro de 2012

Poetas da Nossa Terra


Sinopse

Amália Rodrigues nasceu em Lisboa em 1920, oriunda de uma família modesta, e morreu em 1999, também em Lisboa, depois de ter conquistado fama internacional. Esta cantora invulgarmente brilhante reunia em si tudo aquilo que é necessário para se ser um bom artista: talento, sensibilidade, inteligência e capacidade de trabalho. Muitos consideram que foi a sua voz que levou a cultura e a alma nacionais pelo mundo fora e que o fado não seria hoje Património da Humanidade sem a sua decisiva contribuição. Com este livro, Maria do Rosário Pedreira quis contar aos mais novos quem foi esta portuguesa notável e João Fazenda ilustrou com arte e originalidade todo o texto.


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Poetas da Nossa Terra




É sempre possível


É sempre possível reinventar uma história
para nós próprios,
um caminho desobediente, um grito de ontem,
um delírio figurando um cântico.

A nossa condição de passageiros
é a exacta norma do sonho,
o devaneio fantasmagórico dum réptil
embasbacado ao sol, inocente das noções de tempo,
passado e futuro, a história
que podemos ler nos olhos dos outros,
ou nas infinitas divagações do vento.

Fantasiemos, pois, um caminho tardo e lesto
de imaginárias flores num deserto
para a nossa sede sem recurso,
a não ser a possível ciência de inventar
outro azul para os olhos dos vindouros
nossos filhos.

 Vieira Calado
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domingo, 21 de outubro de 2012

Poetas da Nossa Terra





«Uma perda impossível de suportar»
 é assim que Francisco José Viegas 
secretário de Estado da Cultura, 
fala na morte de Manuel António Pina,
 jornalista, poeta, colunista, e Prémio Camões 2011.

 O MEDO

  Ninguém me roubará algumas coisas,
nem acerca de elas saberei transigir;
um pequeno morto morre eternamente
em qualquer sítio de tudo isto.

É a sua morte que eu vivo eternamente

quem quer que eu seja e ele seja.
As minhas palavras voltam eternamente a essa morte
como, imóvel, ao coração de um fruto.

Serei capaz

de não ter medo de nada,
nem de algumas palavras juntas?


Manuel António Pina, in "Nenhum Sítio"
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