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segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Poetas da Nossa Terra


No meu ventre de mulher cresceu teu feto

e foi a minha boca que te deu palavras

e silêncios para tu gritares

Dos meus braços multipliquei teus braços

e dei distâncias para tu voares

Dei-te tempos-de-nada

medidos de coragem

E foste. E és.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Poetas da Nossa Terra








Mais do que um sonho: comoção!
Sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.

E recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.

Mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor.

Poetas da Nossa Terra






Um Pássaro a Morrer


 Não é vida nem morte, é uma passagem,
nem antes nem depois: somente agora,
um minuto nos tantos duma hora.
Uma pausa. Um intervalo. Uma viragem.

Prisioneira de mim, onde a coragem
de quebrar as algemas, ir-me embora,
se tudo o que em mim ria agora chora,
se já não me seduz outra viagem?

E nada disto é céu nem é inferno.
Tristeza, só tristeza. Sol de Inverno,
sem uma flor a abrir na minha mão,

sem um búzio a cantar ao meu ouvido.
Só tristeza, um silêncio desmedido
e um pássaro a morrer: meu coração.

Fernanda de Castro, in "E Eu, Saudosa, Saudosa"

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Poetas da Nossa Terra








Joaquim Pessoa

Ícaro

A minha Dor, vesti-a de brocado,
Fi-la cantar um choro em melopeia,
Ergui-lhe um trono de oiro imaculado,
Ajoelhei de mãos postas e adorei-a.

Por longo tempo, assim fiquei prostrado,
Moendo os joelhos sobre lodo e areia.
E as multidões desceram do povoado,
Que a minha dor cantava de sereia...

Depois, ruflaram alto asas de agoiro!
Um silêncio gelou em derredor...
E eu levantei a face, a tremer todo:

Jesus! ruíra em cinza o trono de oiro!
E, misérrima e nua, a minha Dor
Ajoelhara a meu lado sobre o lodo. 

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domingo, 22 de julho de 2012

Poetas da Nossa Terra





Antes que Seja Tarde

Antes que Seja Tarde Amigo,
  tu que choras
 uma angústia qualquer
  e falas de coisas mansas
 como o luar
  e paradas como as águas
 de um lago adormecido, acorda!
  Deixa de vez as margens
 do regato solitário
  onde te miras
  como se fosses a tua namorada. 
  Abandona o jardim sem flores
  desse país inventado 
  onde tu és o único habitante.
  Deixa os desejos sem rumo
  de barco ao deus-dará
  e esse ar de renúncia
  às coisas do mundo.
  Acorda, amigo,
  liberta-te dessa paz podre
 de milagre que existe
  apenas na tua imaginação.
  Abre os olhos e olha,
  abre os braços e luta!
  Amigo,
  antes da morte vir
  nasce de vez para a vida.

Manuel da Fonseca, in "Poemas Dispersos"
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terça-feira, 17 de julho de 2012

Poetas da Nossa Terra





modo de amar

prometo ser-te fiel se mo fores
também, não é certo que mo venhas a
ser. por isso, já to perdoo

prefiro partir assim para o resto da
vida. assim, com os olhos abertos à
frustração e talvez à vulnerabilidade

não prevejo nada em concreto, acredita,
não tenho olhos para outras moças,
só o digo assim por ser verdade

que tarde ou cedo havemos de encontrar
nos outros motivos de inusitado
interesse, e depois, pergunto,

vale mais que acordemos um amor
sobreposto ao futuro, um amor agora
que tenha conhecimento do futuro

e não esperar mais nada senão
a verdade. a decadente verdade que
chega já depois dos primeiros beijos

valter hugo mãe, in 'contabilidade'

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quarta-feira, 11 de julho de 2012

Poetas da Nossa Terra




Poema II


De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico. 

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem. 

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem. 

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Poetas da Nossa Terra




De Passagem



Vinham ao fim do dia,
Talvez chamados pelo brilho
dos dentes, ou das unhas,
ou dos vidros.

Eram de longe.
Do mar traziam
o que é do mar: doçura
e o ardor nos olhos fatigados.

Chegavam, bebiam
a púrpura dos espelhos
e partiam.
Sem declinar o nome 

 - Eugénio de Andrade

domingo, 1 de julho de 2012

Poetas da Nossa Terra





  Estrada


A bátega do corpo
incorporado num céu feito de
carne
desenha a fogo a estrada que reúne
as margens que separa
se o futuro
se apaga no futuro se todo o tempo
é guerra e
a pele dos homens tatuagem

 Gastão Cruz

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Poetas da Nossa Terra




Meu amor meu amor


Meu amor meu amor
meu corpo em movimento
minha voz à procura
do seu próprio lamento.
Meu limão de amargura meu punhal a escrever
nós parámos o tempo não sabemos morrer
e nascemos nascemos
do nosso entristecer.
Meu amor meu amor
meu nó e sofrimento
minha mó de ternura
minha nau de tormento
este mar não tem cura este céu não tem ar
nós parámos o vento não sabemos nadar
e morremos morremos
devagar devagar.