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domingo, 1 de julho de 2012

Poetas da Nossa Terra





  Estrada


A bátega do corpo
incorporado num céu feito de
carne
desenha a fogo a estrada que reúne
as margens que separa
se o futuro
se apaga no futuro se todo o tempo
é guerra e
a pele dos homens tatuagem

 Gastão Cruz

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Poetas da Nossa Terra




Meu amor meu amor


Meu amor meu amor
meu corpo em movimento
minha voz à procura
do seu próprio lamento.
Meu limão de amargura meu punhal a escrever
nós parámos o tempo não sabemos morrer
e nascemos nascemos
do nosso entristecer.
Meu amor meu amor
meu nó e sofrimento
minha mó de ternura
minha nau de tormento
este mar não tem cura este céu não tem ar
nós parámos o vento não sabemos nadar
e morremos morremos
devagar devagar. 

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Poetas da Nossa Terra







Não me peças mais canções
Porque a cantar vou sofrendo;
Sou como as velas do altar
Que dão luz e vão morrendo.
Se a minha voz conseguisse
Dissuadir essa frieza
E a tua boca sorrisse!
Mas sóbria por natureza
Não a posso renovar
E o brilho vai-se perdendo...
- Sou como as velas do altar
Que dão luz e vão morrendo. 


domingo, 17 de junho de 2012

Poetas da Nossa Terra






Estou sempre muito longe.
Dizem qualquer coisa e eu pergunto:
- Quê?
Pergunto sempre:
- Quê?
Não sei porquê.
O meu amigo V
Zanga-se e diz:
És surdo ou quê?
E eu repondo sinceramente:
- Sou quê. 


quarta-feira, 13 de junho de 2012

Poetas da Nossa Terra







Um dia chegará a Primavera!
Um dia em qualquer lugar, ou em todos os lugares,
Como um novo maio,
Haverá entendimento dos homens e dos deuses,
O fluir fácil da vida e do trabalho,
E harmonia entre o que se deseja e as mãos já constroem.
Um dia seremos todos crianças maravilhadas.
Um dia seremos inocentes,
E nus. 


sábado, 9 de junho de 2012

Poetas da Nossa Terra




COM OS MORTOS


                       Os que amei, onde estão?
                                        Idos, dispersos,
arrastados no giro dos tufões,
Levados, como em sonho, entre visões,
Na fuga, no ruir dos universos... 
 .
E eu mesmo, com os pés também imersos
Na corrente e à mercê dos turbilhões,
Só vejo espuma lívida, em cachões,
E entre ela, aqui e ali, vultos submersos... 
 .
Mas se paro um momento, se consigo
Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
De novo, esses que amei vivem comigo, 
 .
Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,
Juntos no antigo amor, no amor sagrado,
Na comunhão ideal do eterno Bem.
.
Antero de Quental, in "Sonetos"

terça-feira, 5 de junho de 2012

Poetas da Nossa Terra


Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!


David Mourao Ferreira

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quinta-feira, 31 de maio de 2012

Poetas da Nossa Terra



A Luz que Vem das Pedras 

 A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra,
tu a colhes, mulher, a distribuis
tão generosa e à janela do mundo.
O sal do mar percorre a tua língua;
não são de mais em ti as coisas mais.
Melhor que tudo, o voo dos insectos,
o ritmo nocturno do girar dos bichos,
a chave do momento em que começa o canto
da ave ou da cigarra
— a mão que tal comanda no mesmo gesto fere
a corda do que em ti faz acordar
os olhos densos de cada dia um só.
Quem está salvando nesta respiração
boca a boca real com o universo?

Pedro Tamen, in "Agora, Estar"

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domingo, 27 de maio de 2012

Poetas da Nossa Terra

Que grande reinação

No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada,
Uns por verem rir os outros
E os outros sem ser por nada -
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada...

No comboio descendente
Vinham todos à janela,
Uns calados para os outros
E os outros a dar-lhes trela -
No comboio descendente
Da Cruz Quebrada a Palmela...

No comboio descendente
Mas que grande reinação!
Uns dormindo, outros com sono,                                                                         
E outros nem sim nem não                                               Fernando Pessoa
No comboio descendente
De Palmela a Portimão...

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quarta-feira, 23 de maio de 2012

Poetas da Nossa Terra




LOGOS  TU

Logos Tu que eu não vejo, e estás ao pé de mim
E, o que é mais, dentro de mim — que me rodeias
Com um nimbo de afectos e de idéias,
Que são o meu princípio, meio e fim...
.
Que estranho ser és tu (se és ser) que assim

Me arrebatas contigo e me passeias
Em regiões inominadas, cheias
De encanto e de pavor... de não e sim...
.
És um reflexo apenas da minha alma,

E em vez de te encarar com fronte calma,
Sobressalto-me ao ver-te, e tremo e exoro-te...
.
Falo-te, calas... calo, e vens atento...

És um pai, um irmão, e é um tormento
Ter-te a meu lado... és um tirano, e adoro-te! 

.
  Antero de Quental, in "Sonetos"