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quinta-feira, 31 de maio de 2012

Poetas da Nossa Terra



A Luz que Vem das Pedras 

 A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra,
tu a colhes, mulher, a distribuis
tão generosa e à janela do mundo.
O sal do mar percorre a tua língua;
não são de mais em ti as coisas mais.
Melhor que tudo, o voo dos insectos,
o ritmo nocturno do girar dos bichos,
a chave do momento em que começa o canto
da ave ou da cigarra
— a mão que tal comanda no mesmo gesto fere
a corda do que em ti faz acordar
os olhos densos de cada dia um só.
Quem está salvando nesta respiração
boca a boca real com o universo?

Pedro Tamen, in "Agora, Estar"

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domingo, 27 de maio de 2012

Poetas da Nossa Terra

Que grande reinação

No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada,
Uns por verem rir os outros
E os outros sem ser por nada -
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada...

No comboio descendente
Vinham todos à janela,
Uns calados para os outros
E os outros a dar-lhes trela -
No comboio descendente
Da Cruz Quebrada a Palmela...

No comboio descendente
Mas que grande reinação!
Uns dormindo, outros com sono,                                                                         
E outros nem sim nem não                                               Fernando Pessoa
No comboio descendente
De Palmela a Portimão...

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quarta-feira, 23 de maio de 2012

Poetas da Nossa Terra




LOGOS  TU

Logos Tu que eu não vejo, e estás ao pé de mim
E, o que é mais, dentro de mim — que me rodeias
Com um nimbo de afectos e de idéias,
Que são o meu princípio, meio e fim...
.
Que estranho ser és tu (se és ser) que assim

Me arrebatas contigo e me passeias
Em regiões inominadas, cheias
De encanto e de pavor... de não e sim...
.
És um reflexo apenas da minha alma,

E em vez de te encarar com fronte calma,
Sobressalto-me ao ver-te, e tremo e exoro-te...
.
Falo-te, calas... calo, e vens atento...

És um pai, um irmão, e é um tormento
Ter-te a meu lado... és um tirano, e adoro-te! 

.
  Antero de Quental, in "Sonetos"

sábado, 19 de maio de 2012

Poetas da Nossa Terra





Esta manhã encontrei o teu nome


Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida

foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama

e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos,
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.
MRPedreira

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Poetas da Nossa Terra





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domingo, 13 de maio de 2012

Poetas da Nossa Terra



O Céu é aquela clareira

o céu é aquela clareira
onde deito os olhos com ténues
cambiantes de cor que quase
gasto nas mãos, e como. como
o céu e aguardo uma
digestão convulsa. enquanto
o aguaceiro seca na terra antes que o
possa beber e deus se
vinga de mim ditando
os versos que escondem
a água ao mundo. já as
fogueiras florindo em volta,
murchando o dia que me
persegue. uma intervenção
divina para me resistir



valter hugo mãe
estou escondido na cor amarga do fim da tarde

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Poetas da Nossa Terra






 
Contra ti se ergue a prudência dos inteligentes e o arrojo dos patetas
A indecisão dos complicados e o primarismo
Daqueles que confundem revolução com desforra.

De poster em poster a tua imagem paira na sociedade de consumo
Como o Cristo em sangue paira no alheamento ordenado das igrejas

Porém
Em frente do teu rosto
Medita o adolescente à noite no seu quarto
Quando procura emergir de um mundo que apodrece. 


sábado, 5 de maio de 2012

Poetas da Nossa Terra



A magnólia

A exaltação do mínimo, 
e o magnífico relâmpago 
do acontecimento mestre 
restituem-me a forma 
o meu resplendor. 
.
Um diminuto berço me recolhe 
onde a palavra se elide 
na matéria - na metáfora - 
necessária,e leve, a cada um 
onde se ecoa e resvala. 

A magnólia, 
o som que se desenvolve nela 
quando pronunciada, 
é um exaltado aroma 
perdido na tempestade, 

um mínimo ente magnífico 
desfolhando relâmpagos 
sobre mim  



Luiza Neto Jorge
O seu a seu tempo

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Poetas da Nossa Terra




DORME MEU AMOR

Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais
este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega o pior já passou
há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão
desvia os passos do medo. Dorme, meu amor -

a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e pode levantar-se como um pássaro assim que
adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra
não hão-de derrubar-me eu já morri muitas vezes
e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos

agora e sossega a porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos
nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,

meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e
nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já
olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,
de guarda aos pesadelos a noite é um poema
que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.

M.R.Pedreira

terça-feira, 24 de abril de 2012

Poetas da Nossa Terra


Descobre quem és



Gastão Cruz