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quinta-feira, 6 de outubro de 2011

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Poetas da Nossa Terra





DIETÉTICAS



Todos os dias alimento uma paz pequena:

não é dar-lhe asas de voar,

mas comida verdadeira

 

Poucos sabem das suas preferências:

às vezes um pouco disto,

outras um pouco daquilo,

e a minha paz pequena vai crescendo

e engordando

 

Alimentando-a do que realmente gosta,

de quando em quando receio dispepsia,

que fique obesa e larga:

e urgentes as dietas

 

Para já, a proporção peso-largura

está correcta, mas temo pelo resto:

uma ruptura stibita, ou fome

desmedida que a conduza sozinha

a procurar comida,

tornando-a viciada e vulnerável

 

Muito gorda, sem eficácia nenhuma,

prevejo-a, anti-bulímia,

mas em bruma,

tão sartreanamente

irrecuperável

 
ANA LUÍSA AMARAL, Às Vezes o Paraíso, 

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Poetas da Nossa Terra

 
 
 
 Para Quê Tanta Pressa...
 

O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sêde, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo…
Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.


 Jorge de Sena 

domingo, 25 de setembro de 2011

Poetas da Nossa Terra




Vinham ao fim do dia,
Talvez chamados pelo brilho
dos dentes, ou das unhas,
ou dos vidros.

Eram de longe.
Do mar traziam
o que é do mar: doçura
e o ardor nos olhos fatigados.

Chegavam, bebiam
a púrpura dos espelhos
e partiam.
Sem declinar o nome 

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Poetas da Nossa Terra



As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram

Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens

Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro

E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.

Daniel Faria

de Homens Que São Como Lugares Mal Situados (1998)


segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Poetas da Nossa Terra




As pessoas sensíveis

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas


O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra


"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão."


Ó vendilhões do templo
Ó constructores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito


Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.



Sophia de Mello Breyner Andresen
(Livro sexto)

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Poetas da Nossa Terra



 :  o órgão do mar 

  
por vezes
quando caminho sobre as pedras da beira rio
que se rasgam sob os passos
interrogo a tarde e os fantasmas
que se escapam destas fendas.


ao som de uma melodia evanescente
abro as portas da alma
e, de par em par,
todos os portões do corpo.


sem amarras, à beira de Ser
acalmo então a passada


leio teresa
o poema da recusa e pressinto
que se não as polpas
então os verbos crus nus como
os meus pés descalços, sempre descalços, sabem de ti
da erva
da cidade
do mar que é nosso
que unindo afasta as marés e as margens,


da falésia


de todas as coisas visíveis
de todas as se opõem
simétricas e complementares


das que falam
das que calam
das que gemem de prazer
das que gritam gaivotas soltas no silêncio de mulher,


é então que, em emudecimento contemplativo, oiço a lição de nietzsche
e, experimentada, solto o elástico que me prende


no vazio em queda livre, convicta
deixo-me pender, árvore de braços abertos
sobre o mar …


Teresa Horta
Poema inédito

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Poetas da Nossa Terra





SOMOS  LIVRES







José Fanha

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Poetas da Nossa Terra


Esta manhã encontrei o teu nome


Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida

foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama

e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos,
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.

Maria do Rosário Pedreira

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Poetas da Nossa Terra



A noite chega com todos os seus rebanhos


Uma cidade amadurece nas vertentes do crepúsculo
Há um íman que nos atrai para o interior da montanha.
Os navios deslizam nos estuários do vento.
Alguma coisa ascende de uma região negra.
Alguém escreve sobre os espelhos da sombra.
A passageira da noite vacila como um ser silencioso.
O último pássaro calou-se.As estrelas acenderam-se.
As ondas adormeceram com as cores e as imagens.
As portas subterrâneas têm perfumes silvestres.
Que sedosa e fluida é a água desta noite!
Dir-se-ia que as pedras entendem os meus passos.
Alguém me habita como uma árvore ou um planeta.
Estou perto e estou longe no coração do mundo.



de A Rosa Esquerda(1991)

Ramos Rosa