Caminho sem pés e sem sonhos | ||||
| Caminho sem pés e sem sonhos só com a respiração e a cadência da muda passagem dos sopros caminho como um remo que se afunda. os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes para que a elevação e a profundidade se conjuguem. avanço sem jugo e ando longe de caminhar sobre as águas do céu. Daniel Faria de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998) |
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segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Poetas da Nossa Terra
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
Poetas da Nossa Terra
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia Mello B. Andersen
Outubro 2000
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Poetas da Nossa Terra
valter hugo mãe nasceu em Angola, Saurimo, em 1971. Passou a infância em Paços de Ferreira, vive em Vila do Conde desde 1981. Licenciado em Direito, pós-graduado em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea. Vencedor do Prémio José Saramago com o romance o remorso de baltazar serapião, Quidnovi, 2006
valter hugo mãe
contra mim bate a esperta difusão
contra mim bate a esperta difusão
do tempo, a extensa confusão do
olhar, a vibrante galeria da
cor: o espaço. durante uma
pequena e qualquer loucura, não
me componho.
se não somos mudos, ficarei
surdo. nestas rochas onde o
sol se desleixa e persegue as
águias que escondem ninhos
secos.
e é quando tento agarrar
o sol que reparo ter
as mãos convexas
valter hugo mãe
estou escondido na cor amarga do fim da tardesexta-feira, 5 de agosto de 2011
Poetas da Nossa Terra
Seus Olhos
Seus olhos - que eu sei pintar
O que os meus olhos cegou –
Não tinham luz de brilhar,
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do Destino.
Divino, eterno! - e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder,
Que, um só momento que a vi,
Queimar toda a alma senti...
Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi.
Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'
O que os meus olhos cegou –
Não tinham luz de brilhar,
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do Destino.
Divino, eterno! - e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder,
Que, um só momento que a vi,
Queimar toda a alma senti...
Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi.
Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'
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terça-feira, 2 de agosto de 2011
Poetas da Nossa Terra
Dorme, meu amor
Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega — o pior já passou há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão desvia os passos do medo. Dorme, meu amor
— a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste e pode levantar-se como um pássaro assim que adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra não hão-de derrubar-me — eu já morri muitas vezes e é ainda da vida que tenho mais medo.
Fecha os olhos agora e sossega — a porta está trancada;
e os fantasmas da casa que o jardim devorou andam perdidos nas brumas que lancei ao caminho.
Por isso, dorme, meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui, de guarda aos pesadelos — a noite é um poema que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres
Maria do Rosário Pedreira
sábado, 30 de julho de 2011
Poetas da Nossa Terra
Se te amar é pecado
Eu quero ser pecador
Em cada beijo trocado
Ou cada gesto de amor.
Pecar e ser amado
Nessa mesma proporção
Em que sendo o teu pecado
És a minha perdição.
E, ao amar-te, pecadora,
Coisa tão contra-natura,
Sonho ver-te sonhadora
Na fogueira da ternura.
O pecado original
Seria só converter
O nosso amor virtual
Numa noite de prazer.
Para um amor querubino
Mil noites seriam pouco.
Tenho escrito no destino:
Para sempre ou ficar louco.
Eu quero ser pecador
Em cada beijo trocado
Ou cada gesto de amor.
Pecar e ser amado
Nessa mesma proporção
Em que sendo o teu pecado
És a minha perdição.
E, ao amar-te, pecadora,
Coisa tão contra-natura,
Sonho ver-te sonhadora
Na fogueira da ternura.
O pecado original
Seria só converter
O nosso amor virtual
Numa noite de prazer.
Para um amor querubino
Mil noites seriam pouco.
Tenho escrito no destino:
Para sempre ou ficar louco.
Luis Eusébio
terça-feira, 26 de julho de 2011
Poetas da Nossa Terra
Cesário Verde
De tarde
Naquele «pic-nic» de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.
Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.
Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.
Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas.
Cesário Verde
sábado, 23 de julho de 2011
Poetas da Nossa Terra
A IMPOSSÍVEL SARÇA
Que mais fazer
se as palavras queimam
e tanta coisa em fumo em tanta coisa
sarças ardentes do avesso
o fogo em labaredas que mais
fazer
se as palavras queimam
e tanta coisa em fumo em tanta coisa
sarças ardentes do avesso
o fogo em labaredas que mais
fazer
Que mais fazer
se nem a água tantas vezes
descrita abençoada
mas demais e cristã
também castigo
Mas como nem castigo
nem as nuvens de fumo na sarça
do avesso
se tudo no avesso
das palavras
que não chegam
— mas cegam
se nem a água tantas vezes
descrita abençoada
mas demais e cristã
também castigo
Mas como nem castigo
nem as nuvens de fumo na sarça
do avesso
se tudo no avesso
das palavras
que não chegam
— mas cegam
Ana Luiza Amaral
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Poetas da Nossa Terra
Seja o amor como o tempo |
Guardam as tardes , o silêncio
tranquilo e tolhido de movimento.
Habitam os homens
que precedem as partidas ,
também tranquilos.
Que se vestem com acenos
na calma do momento.
Recordam os corpos calados
que se encurtam ferventes.
Que abertos nas costas
têm o peso da água.
Salpicam as horas graves.
Multiplicam-se no frio inerte da memória.
Julgam-se libertos , os homens ,
com as palavras na expressão implacável
do entardecer dos passos últimos.
Nuno Travanca |
domingo, 17 de julho de 2011
Poetas da Nossa Terra
Para quê Complicar
Não precisas de presentes
Nem rimas, nem flores, nem nada
Basta trazeres o que sentes
E chegares de madrugada
Nem rimas, nem flores, nem nada
Basta trazeres o que sentes
E chegares de madrugada
Perde as mãos pelo meu corpo
Faz-me calar com um beijo
Como se eu fosse o teu porto
E tu meu mar de desejo
Faz-me calar com um beijo
Como se eu fosse o teu porto
E tu meu mar de desejo
Deixa falar a paixão
Não faças juras de amor
É só carinho e tesão
Suor, gemidos, calor
Enrosca-te no meu seio
Os corações a bater
Sem confusão, sem rodeio
Mais simples não pode ser.
Rosa Cordeiro
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