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terça-feira, 2 de agosto de 2011

Poetas da Nossa Terra




Dorme, meu amor


  Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega — o pior já passou há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão desvia os passos do medo. Dorme, meu amor 
— a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste e pode levantar-se como um pássaro assim que adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra não hão-de derrubar-me — eu já morri muitas vezes e é ainda da vida que tenho mais medo. 
Fecha os olhos agora e sossega — a porta está trancada; 
e os fantasmas da casa que o jardim devorou andam perdidos nas brumas que lancei ao caminho.
Por isso, dorme, meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui, de guarda aos pesadelos — a noite é um poema que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres

Maria do Rosário Pedreira

sábado, 30 de julho de 2011

Poetas da Nossa Terra






 (e)Ternamente

Se te amar é pecado
Eu quero ser pecador
Em cada beijo trocado
Ou cada gesto de amor. 


Pecar e ser amado
Nessa mesma proporção
Em que sendo o teu pecado
És a minha perdição.


E, ao amar-te, pecadora,
Coisa tão contra-natura,
Sonho ver-te sonhadora
Na fogueira da ternura.


O pecado original
Seria só converter
O nosso amor virtual
Numa noite de prazer.


Para um amor querubino
Mil noites seriam pouco.
Tenho escrito no destino:
Para sempre ou ficar louco.



Luis Eusébio 

terça-feira, 26 de julho de 2011

Poetas da Nossa Terra






Cesário Verde


De tarde

Naquele «pic-nic» de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas.

Cesário Verde


sábado, 23 de julho de 2011

Poetas da Nossa Terra

 


 A IMPOSSÍVEL SARÇA

 Que mais fazer
se as palavras queimam
e tanta coisa em fumo em tanta coisa
sarças ardentes do avesso
o fogo em labaredas que mais
fazer
Que mais fazer
se nem a água tantas vezes
descrita abençoada
mas demais e cristã
também castigo

Mas como nem castigo

nem as nuvens de fumo na sarça
do avesso
se tudo no avesso
das palavras

que não chegam

— mas cegam

Ana Luiza Amaral

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Poetas da Nossa Terra





Seja o amor como o tempo

Guardam as tardes , o silêncio
tranquilo e tolhido de movimento.

Habitam os homens
que precedem as partidas , 
também tranquilos.

Que se vestem com acenos
na calma do momento.

Recordam os corpos calados
que se encurtam ferventes.

Que abertos nas costas 
têm o peso da água.

Salpicam as horas graves.

Multiplicam-se no frio inerte da memória.

Julgam-se libertos , os homens ,
com as palavras na expressão implacável
do entardecer dos passos últimos.



Nuno Travanca
 

domingo, 17 de julho de 2011

Poetas da Nossa Terra




Para quê Complicar

Não precisas de presentes
Nem rimas, nem flores, nem nada
Basta trazeres o que sentes
E chegares de madrugada

Perde as mãos pelo meu corpo
Faz-me calar com um beijo
Como se eu fosse o teu porto
E tu meu mar de desejo

Deixa falar a paixão
Não faças juras de amor
É só carinho e tesão
Suor, gemidos, calor

Enrosca-te no meu seio
Os corações a bater
Sem confusão, sem rodeio
Mais simples não pode ser.
Rosa Cordeiro 

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Poetas da Nossa Terra


Até Amanhã

 
Sei agora como nasceu a alegria,
como nasce o vento entre barcos de papel,
como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima.

É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaros no sangue.

É subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar é diurno e sem palavras.

Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias. 

 

Eugénio de Andrade, in "Até Amanhã"

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Poetas da Nossa Terra




CAMINHO

a Ferreira de Castro

Dizem aqueles tristes que julgaram
Ter vivido num dia toda a vida:
-- É tudo engano e a alma aborrecida
Morre dos ideais que alucinaram...

E aos outros gritam: -- Onde, esta subida
Atrás das ilusões que vos chamaram?
-- Loucos, parai... Só esses que pararam
Chegaram à verdade apetecida!

Mas nós -- nem os ouvimos, nós, os fortes
Que através de mil prantos e mil mortes,
Sabemos que a verdade ou a ilusão,

-- Ideia altiva ou corpo de mulher --
Nunca podem fugir a quem tiver
Beijos de amor e garras de ambição!


João de Barros

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Poetas da Nossa Terra



Soneto

Se, para possuir o que me é dado,
Tudo perdi e eu próprio andei perdido,
Se, para ver o que hoje é realizado,
Cheguei a ser negado e combatido.

Se, para estar agora apaixonado,
Foi necessário andar desiludido,
Alegra-me sentir que fui odiado
Na certeza imortal de ter vencido!

Porque, depois de tantas cicatrizes,
Só se encontra sabor apetecido
Àquilo que nos fez ser infelizes!

E assim cheguei à luz de um pensamento
De que afinal um roseiral florido
Vive de um triste e oculto movimento


 António Botto

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Poetas da Nossa Terra



Exaltação



Viver!... Beber o vento e o sol!... Erguer
Ao Céu os corações a palpitar!
Deus fez os nossos braços pra prender,
E a boca fez-se sangue pra beijar!

A chama, sempre rubra, ao alto, a arder!...
Asas sempre perdidas a pairar,
Mais alto para as estrelas desprender!...
A glória!... A fama!... O orgulho de criar!...

Da vida tenho o mel e tenho os travos
No lago dos meus olhos de violetas,
Nos meus beijos extáticos, pagãos!...

Trago na boca o coração dos cravos!
Boémios, vagabundos, e poetas:
- Como eu sou vossa Irmã, ó meus Irmãos!...

Florbela Espanca