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segunda-feira, 16 de maio de 2011

Poetas da Nossa Terra





Primeiro a tua mão sobre o meu seio.




Primeiro a tua mão sobre o meu seio.
Depois o pé - o meu - sobre o teu pé.
Logo o roçar urgente do joelho
e o ventre mais à frente na maré.

É a onda do ombro que se instala.
É a linha do dorso que se inscreve.
A mão agora impõe, já não embala
mas o beijo é carícia, de tão leve.

O corpo roda: quer mais pele, mais quente.
A boca exige: quer mais sal, mais morno.
Já não há gesto que se não invente,
ímpeto que não ache um abandono.

Então já a maré subiu de vez.
É todo o mar que inunda a nossa cama.
Afogados de amor e de nudez
Somos a maré alta de quem ama

Por fim o sono calmo, que não é
Senão ternura, intimidade, enleio:
O meu pé descansando no teu pé,
A tua mão dormindo no meu seio.


in «Cem  Poemas Portugueses no Feminino»,


sexta-feira, 13 de maio de 2011

Poetas da Nossa Terra

Vencedor do Prémio Camões deste Ano







Completas
(Tema -Amor)


A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.


Manuel António Pina,
in “Algo Parecido Com Isto, da Mesma Substância”
Tema(s): Amor 

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Poetas da Nossa Terra


                                                                   Carta ao Oceano

Ó Grande Alma trágica e sombria!
Quando hás-de enfim, na campa repousar?
Após a luta persistente e fria,
Ah, quanto é bom morrer... dormir... sonhar...


Estrebuchas nas ânsias da agonia,
Há mil e tantos séculos, ó Mar!
E nunca cessas de lutar, um dia,
E nunca morres, Alma singular!


Mas, ao chegar teu último momento,
Quando zurzir nos ares a metralha
Da tua alma desfraldada ao vento:


Envolto nessa líquida mortalha,
Tu cairás prostrado, sem alento,
Como um guerreiro ao fim d'uma batalha!
 
                                                                                             António Nobre

domingo, 8 de maio de 2011

Poetas da Nossa Terra




Esta manhã encontrei o teu nome


Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida

foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama

e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos,
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.

Maria Rosário Pedreira 

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quinta-feira, 5 de maio de 2011

Poetas da Nossa Terra



É já o : Segundo Prémio de 'O Livro do Sapateiro






Poema Nº. 5


Estar aqui é como não estar aqui.

No escuro onde as minhas lentas mãos modelam

a pele deste ser vivo,

o universo,

é da fina camada que cobriu

o seu vasto percurso

no largo da pastagem,

é no táctil roçar da sua vida

que uma luz, é esta!, me transporta.

(…)

Pedro Tamen - O Livro do Sapateiro

terça-feira, 3 de maio de 2011

Poetas da Nossa Terra


POR UMA LINHA DE ÁGUA...

 
Dizes-me que «um mar rodeia o mundo de quem está só»
E eu desenho-te,
no centro da palma da tua mão,
uma linha de água.
Olhas-me,
como se essa linha te lembrasse
o quanto de ti trouxe nos meus dedos.
Há caminhos verticais, sabias?
Que se descobrem em passos ancestrais,
porém sempre renovados.
Sim,
esses que te levam ao início da memória...
Onde ecoa o meu nome, que tentaste esquecer.
E o calor da pele do meu peito sobre o teu.
Sim,
esses que te lembram o prazer de negar a solidão.
E o querer de querer mais.
E mais.
Mais!

Podia contar-te o segredo da hora de águas e areias.
Onde o tempo da ausência
se dissolve na cristalização do sal.
E o encontro das aves acontece...
Mas olho-te, em silêncio.
E sorrio.
Num convite para vires até mim
por uma simples linha de água.
Vem descobrir a coragem
De falar de amor, aves, pele, tempo,
sopro, azul, vento...
Agora.
Agora!

________Nuno Júdice

domingo, 1 de maio de 2011

Poetas da Nossa Terra


Poema à Mãe 

 
No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.
Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
          Era uma vez uma princesa
          no meio de um laranjal...

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.


Eugénio de Andrade, in "Os Amantes Sem Dinheiro"


quinta-feira, 28 de abril de 2011

Poetas da Nossa Terra


 

ESTOU MAIS PERTO DE TI PORQUE TE AMO...

Estou mais perto de ti porque te amo.
Os meus beijos nascem já na tua boca.
Não poderei escrever teu nome com palavras.
Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me.
Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto.
Quero a tua boca aberta em minha boca.
E amo-te como se nunca te tivesse amado
porque tu estás em mim mas ausente de mim.
Nesta noite sei apenas dos teus gestos
e procuro o teu corpo para além dos meus dedos.
Trago as mãos distantes do teu peito.
Sim, tu estás em toda a parte.
Em toda a parte.
Tão por dentro de mim.
Tão ausente de mim.
E eu estou perto de ti porque te amo.
( Joaquim Pessoa, in Os Olhos de Isa)




segunda-feira, 25 de abril de 2011

Poetas da Nossa Terra






O meu país sabe as amoras bravas

no verão.

Ninguém ignora que não é grande,

nem inteligente, nem elegante o meu país,

mas tem esta voz doce

de quem acorda cedo para cantar nas silvas.

Raramente falei do meu país, talvez

nem goste dele, mas quando um amigo

me traz amoras bravas

os seus muros parecem-me brancos,

reparo que também no meu país o céu é azul





  PSophia de Mello Breyner Andresen 

ou  Eugénio Andrade.....??

terça-feira, 19 de abril de 2011

Poetas da Nossa Terra









Se me comovesse o amor


Se me comovesse o amor como me comove
a morte dos que amei, eu viveria feliz. Observo
as figueiras, a sombra dos muros, o jasmineiro
em que ficou gravada a tua mão, e deixo o dia

caminhar por entre veredas, caminhos perto do rio.
Se me comovessem os teus passos entre os outros,
os que se perdem nas ruas, os que abandonam
a casa e seguem o seu destino, eu saberia reonhecer

o sinal que ninguém encontra, o medo que ninguém
comove. Vejo-te regressar do deserto, atravessar
os templos, iluminar as varandas, chegar tarde.

Por isso não me procures, não me encontres,
não me deixes, não me conheças. Dá-me apenas
o pão, a palavra, as coisas possíveis. De longe.

Francisco José Viegas (n.1962), "Se Me Comovesse o Amor",2007