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quinta-feira, 7 de abril de 2011

Poetas da Nossa Terra


Dia de Anos

Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Todos esses anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse...
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado...
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo? Coitado!

Não faça tal: porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa: que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los queira ou não queira!






segunda-feira, 4 de abril de 2011

Poetas da Nossa Terra





      BarcaBela


Pescador da barca bela,
 Onde vais pescar com ela,
Que é tão bela,

 Ó pescador?

Não vês que a última estrela
 
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,

 Ó pescador!

Deita o lanço com cautela,

 Que a sereia canta bela...
Mas cautela,

 Ó pescador!

Não se enrede a rede nela,
 
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
 
Ó pescador!

Pescador da barca bela,

 Inda é tempo, 
foge dela,
Foge dela,

 Ó pescador!

Almeida Garrett

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Poetas da Nossa Terra




O SOL NAS NOITES E O LUAR NOS DIAS
           

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.
           
E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.
           
Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.
           
Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

  Natália Correia         
O Sol nas Noites e o Luar nos Dias, II

terça-feira, 29 de março de 2011

Poetas da Nossa Terra

O Poeta



Trabalha agora na importação
     e exportação. Importa
metáforas, exporta alegorias.
     Podia ser um trabalhador
     por conta própria,
um desses que preenche
     cadernos de folha azul com
     números
de deve e haver. De facto, o que
     deve são palavras; e o que tem
é esse vazio de frases que lhe
     acontece quando se encosta
ao vidro, no inverno, e a chuva cai
     do outro lado. Então, pensa
que poderia importar o sol
     e exportar as nuvens.
     Poderia ser
um trabalhador do tempo. Mas,
     de certo modo, a sua
prática confunde-se com a de um
     escultor do movimento. Fere,
com a pedra do instante, o que 
     passa a caminho
     da eternidade;
suspende o gesto que sonha o céu;
     e fixa, na dureza da noite,
o bater de asas, o azul, a sábia
     interrupção da morte.

Nuno Júdice

domingo, 27 de março de 2011

Poetas da Nossa Terra





Ainda sabemos cantar,
só a nossa voz é que mudou:
somos agora mais lentos,
mais amargos,
e um novo gesto é igual ao que passou.

Um verso já não é a maravilha,
um corpo já não é a plenitude.



Eugénio de Andrade

sexta-feira, 25 de março de 2011

Poetas da Nossa Terra


Eu queria mais altas as estrelas,





Eu queria mais altas as estrelas,
Mais largo o espaço, o Sol mais criador,
Mais refulgente a Lua, o mar maior,
Mais cavadas as ondas e mais belas;

Mais amplas, mais rasgadas as janelas
Das almas, mais rosais a abrir em flor,
Mais montanhas, mais asas de condor,
Mais sangue sobre a cruz das caravelas!

E abrir os braços e viver a vida:
- Quanto mais funda e lúgubre a descida,
Mais alta é a ladeira que não cansa!

E, acabada a tarefa... em paz, contente,
Um dia adormecer, serenamente,
Como dorme no berço uma criança!






Florbela Espanca





quarta-feira, 23 de março de 2011

Poetas da Nossa Terra



Na margem de um rio
 
    
   São assim os amigos, frágeis, como dunas.
   Altas labaredas os consomem
   e dizem nomes, recados de amor.
    
   Nada os habita quando damos as mãos,
   os rostos recortados no frio azul
   para reparar o que nos une e o que nos afasta.
    
   São assim os amigos, vêm
   com uma ferida móvel entre os dedos
   junto de mim. Perdidos eu os encontro,
   aos amigos,ao que por ser frágil perdura
   como uma claridade um nome branco.
   
Francisco José Viegas, in
"Metade da VI da", Ed. Quasi, Lisboa, 2002.
    

domingo, 20 de março de 2011

Poetas da Nossa Terra



Quadras
Sem que o discurso eu pedisse,
Ele falou; e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
Do que disse não gostei.


Tu, que tanto prometeste
Enquanto nada podias,
Hoje que podes – esqueceste
Tudo quanto prometias…


Chegasses onde pudesses;
Mas nunca devias rir
Nem fingir que não conheces
Quem te ajudou a subir!


Os que bons conselhos dão
Às vezes fazem-me rir,
- Por ver que eles próprios são
Incapazes de os seguir.


Mesmo que te julguem mouco
Esses que são teus iguais,
Ouve muito e fala pouco:
Nunca darás troco a mais!


Entra sempre com doçura
A mentira, pr’a agradar;
A verdade entra mais dura,
Porque não quer enganar.


Se te censuram, estás bem,
P’ra que a sorte te perdure;
Mal de ti quando ninguém
Te inveje nem te censure!

Ant.Aleixo

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Poetas da Nossa Terra

        

  Moda
 Cante Alentejano de Serpa
Distante da terra amada
Meu Alentejo de esperança
Nunca esqueço a minha terra
Serpa da minha lembrança
Serpa da minha lembrança
E do amor que ela encerra
Meu Alentejo de esperança
Amante da minha terra


         Cantiga

Sou filho do Alentejo
Vivendo em terra distante
Não esqueço a minha terra
Nem as trovas do seu cante

Serpa do meu bem querer
De noites cheias de cor
De histórias e de lendas
Serpa tu és um amor

aqui repete-se a moda



Muralhas velhas de Serpa
São lindas como postais
Quando um dia regressar
Não te deixo nunca mais

Um dia quando eu voltar
Abre p'ra mim os teus braços
Deixa que em ti finalmente  
Repouse dos meus cansaços 


(Grupo Coral de Castro Verde, C/ Dulce Pontes)

segunda-feira, 14 de março de 2011

Poetas da Nossa Terra



Um dia


Um dia mortos gastos voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala

Sophia de Mello Breyner