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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Poetas da Nossa Terra


NATAL

Um anjo imaginado,
Um anjo diabético, actual,
Ergueu a mão e disse: — É noite de Natal,
Paz à imaginação!
E todo o ritual
Que antecede o milagre habitual
Perdeu a exaltação.

Em vez de excelsos hinos de confiança
No mistério divino,
E de mirra, e de incenso e ouro
Derramados
No presépio vazio,
Duas perguntas brancas, regeladas
Como a neve que cai,
E breve como o vento
Que entra por uma fresta, quizilento,
Redemoinha e sai:

A volta da lareira
Quantas almas se aquecem
Fraternalmente?
Quantas desejam que o Menino venha
Ouvir humanamente
O lancinante crepitar da lenha?

Miguel Torga (Escritor e poeta português, 190995)7-1

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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Poetas da Nossa Terra



Natal

Leio o teu nome
Na página da noite: Menino Deus...
E fico a meditar
No milagre dobrado

De ser Deus e menino.
Em Deus não acredito.
Mas de ti como posso duvidar?
Todos os dias nascem
Meninos pobres em currais de gado.
Crianças que são ânsias alargadas

De horizontes pequenos.
Humanas alvoradas...
A divindade é o menos.


Miguel Torga

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