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terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Poetas da Nossa Terra






Atrás dos Tempos Vêm Tempos


    Não canto porque sonho.
    Canto porque és real.
    Canto o teu olhar maduro,
    teu sorriso puro,
    a tua graça animal.

    Canto porque sou homem.
    Se não cantasse seria
    mesmo bicho sadio
    embriagado na alegria
    da tua vinha sem vinho.

    Canto porque o amor apetece.
    Porque o feno amadurece
    nos teus braços deslumbrados.
    Porque o meu corpo estremece
    ao vê-los nus e suados.

 Eugénio de Andrade
, 1996

terça-feira, 1 de junho de 2010

Poetas da Nossa Terra


Retrato Ardente


Entre os teus lábios
é que a loucura acode
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.

Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio"

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