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sábado, 30 de novembro de 2013

Poetas da Nossa Terra






ALIMENTO IMPERFEITO

Possa eu tornar-me pedra,
da pedra areia, da rocha
grão, do diamante brilho.

Endureça eu como concha
de água matricial, minério
de cobre, coração cristalino.

Seja eu alimento imperfeito
de clareza perfeita, mar denso,
condensado, astral e puro.

Seja eu mel coagulado
d’orvalho e ouro vivo.


In “Adornos”
Editorial Dom Quixote

Ana Marques Gastão

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Poetas da Nossa Terra





PRECE

Senhor, deito-me na cama
Coberto de sofrimento;
E a todo o comprimento
Sou sete palmos de lama:
Sete palmos de excremento
Da terra-mãe que me chama.

Senhor, ergo-me do fim
Desta minha condição
Onde era sim, digo não
Onde era não, digo sim;
Mas não calo a voz do chão
Que grita dentro de mim.

Senhor, acaba comigo
Antes do dia marcado;
Um golpe bem acertado,
O tiro de um inimigo.....
Qualquer pretexto tirado
Dos sarcasmos que te digo.

Poema escrito a 11/12/1934

Miguel Torga

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Poetas da Nossa Terra






QUANDO VIERES

Encontrarás tudo como quando partiste.
A mãe bordará a um canto da sala...
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
O pai fumará o cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.
Quando vieres
Só não encontrarás aquela menina de saias curtas
E cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.
Quando vieres
nenhum de nós dirá nada
mas a mãe largará o bordado
o pai largará o jornal
as crianças os brinquedos
e abriremos para ti os nossos corações.
Pois quando tu vieres
Não és só tu que vens
É todo um mundo novo que despontará lá fora
Quando vieres.


In “Silêncio de Vidro”
Editorial Escritor

Maria Eugénia Cunhal

domingo, 10 de novembro de 2013

Poetas da Nossa Terra






HÁ UMA MULHER A MORRER SENTADA

Há uma mulher a morrer sentada
Uma planta depois de muito tempo
Dorme sossegadamente
Como cisne que se prepara
Para cantar

Ela está sentada à janela. Sei que nunca
Mais se levantará para abri-la
Porque está sentada do lado de fora
E nenhum de nós pode trazê-la para dentro

Ela é tão bonita ao relento
Inesgotável

É tão leve como um cisne em pensamento
E está sobre as águas
É um nenúfar, é um fluir já anterior
Ao tempo

Sei que não posso chamá-la das margens
In “Dos Líquidos”
Fundação Manuel Leão – Porto – 2000

Daniel Faria

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Poetas da Nossa Terra




Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto





Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.

Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas húmidas e chãs
com que em casa se cozinham perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.

O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono
se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.


Maria do Rosário Pedreira
de A Casa e o Cheiro dos Livros

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Poetas da Nossa Terra







REGRESSO



Por toda a parte espectros
Do mapa percorrido em cinco e quarenta
Prolongados anos
A cidade encontra
O espectro do que eu fui
Saído dos horrores da adolescência Filtra obscuramente
O meu imo
Que não conheço Vem
[irreconhecível
Ao meu encontro
Tacteamo-nos no escuro
Apaixonadamente
O amor é cego
Mas só ele permite
Realmente ver


Londres, 25 de Novembro de 1996
[in O Pajem Formidável dos Indícios, Assírio & Alvim, 2010

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Poetas da Nossa Terra





REALIDADE

Por causa de um livro
vieste ao meu encontro.
Era Verão, não sabias de nada
nem isso interessava. Palavras
amavam-se fora de ti,
no atropelo das emoções.
Lá chegaria a primeira vez,
o encontro apressado num lugar
público. Desfeito o erro
ao toque da pele, não sei
se havia medo, a paixão queria-me
no lugar exacto do teu coração.
Palavras enrolam-se na sombra
da vida a dor do sentimento.

Atingido o espírito, o tempo
da infância, a realidade. Em ti
a solidão que o prazer
não mata. Quero a beleza
dos versos revelada.
Alguns anos passaram sobre
a nossa história que não acabou.
A tarde envelhece e escrevo isto
sem saber porquê.

In “Erosão de Sentimentos”
Editorial Caminho

Isabel de Sá

domingo, 20 de outubro de 2013

Poetas da Nossa Terra



ISTO

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir! Sinta quem lê!


Cancioneiro

In “Fernando Pessoa – Antologia Poética”

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Poetas da Nossa Terra





ALMA

Vive cada instante com intensidade.
Absorve cada sopro, cada aragem.
Alegre saboreia a mocidade,
Que a vida é quase uma miragem!

Abre as asas e livre voa,
Mesmo que seja um breve planar.
Procura a Estrela-guia e o luar
Que retirem do teu caminho o que magoa!

Sê tu, sempre tu, autêntica e pura.
Afasta os espinhos, a terra dura.
Amanheça de alegria o teu sorriso!

Possas ser, dos tristes, arrimo e encanto.
Esconde rosas vermelhas no teu manto
E faz do solo que pisas um Paraíso!...


In “O Livro da Nena” – Fevereiro de 2008
Papiro Editora

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Poetas da Nossa Terra





A CONCHA PERFEITA DAS TUAS MÃOS

sei um jeito de te fazer ficar
murmuravas nas manhãs em que nascíamos
ávidos de nós
e éramos tão novos
e faltávamos às aulas

posso ter esquecido admito muita coisa
caminhos promessas lugares a cor
da saia que vestia no dia em que não voltei
muita coisa admito menos
a concha perfeita das tuas mãos sobre o meu peito
o cheiro das laranjeiras as cartas
em papel tão adolescente e azul
o esplendor de junho à mesa familiar
os espelhos garantindo-nos um lugar único na casa

posso ter esquecido admito muita coisa
menos os nossos corpos simultâneos
às portas do amor

no arco da minha pele que humidamente
se abria ao lume da tua língua

nessas manhãs em que jurámos
não morrer nunca



In “Dois Corpos Tombando na Água”
Editorial Caminho – 2007 

Alice Vieira