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quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Poetas da Nossa Terra





Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz-
Ter por vida a sepultura.
...

Grécia, Roma, Cristandade,
Europa - os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?

domingo, 28 de outubro de 2012

Poetas da Nossa Terra


Sinopse

Amália Rodrigues nasceu em Lisboa em 1920, oriunda de uma família modesta, e morreu em 1999, também em Lisboa, depois de ter conquistado fama internacional. Esta cantora invulgarmente brilhante reunia em si tudo aquilo que é necessário para se ser um bom artista: talento, sensibilidade, inteligência e capacidade de trabalho. Muitos consideram que foi a sua voz que levou a cultura e a alma nacionais pelo mundo fora e que o fado não seria hoje Património da Humanidade sem a sua decisiva contribuição. Com este livro, Maria do Rosário Pedreira quis contar aos mais novos quem foi esta portuguesa notável e João Fazenda ilustrou com arte e originalidade todo o texto.


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Poetas da Nossa Terra




É sempre possível


É sempre possível reinventar uma história
para nós próprios,
um caminho desobediente, um grito de ontem,
um delírio figurando um cântico.

A nossa condição de passageiros
é a exacta norma do sonho,
o devaneio fantasmagórico dum réptil
embasbacado ao sol, inocente das noções de tempo,
passado e futuro, a história
que podemos ler nos olhos dos outros,
ou nas infinitas divagações do vento.

Fantasiemos, pois, um caminho tardo e lesto
de imaginárias flores num deserto
para a nossa sede sem recurso,
a não ser a possível ciência de inventar
outro azul para os olhos dos vindouros
nossos filhos.

 Vieira Calado
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domingo, 21 de outubro de 2012

Poetas da Nossa Terra





«Uma perda impossível de suportar»
 é assim que Francisco José Viegas 
secretário de Estado da Cultura, 
fala na morte de Manuel António Pina,
 jornalista, poeta, colunista, e Prémio Camões 2011.

 O MEDO

  Ninguém me roubará algumas coisas,
nem acerca de elas saberei transigir;
um pequeno morto morre eternamente
em qualquer sítio de tudo isto.

É a sua morte que eu vivo eternamente

quem quer que eu seja e ele seja.
As minhas palavras voltam eternamente a essa morte
como, imóvel, ao coração de um fruto.

Serei capaz

de não ter medo de nada,
nem de algumas palavras juntas?


Manuel António Pina, in "Nenhum Sítio"

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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Poetas da Nossa Terra






Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos. Fecha os olhos agora e sossega — o pior já passou há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão desvia os passos do medo. Dorme, meu amor —

 a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste e pode
levantar-se como um pássaro assim que adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra não hão-de derrubar-me — eu já morri muitas vezes e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos

 agora e sossega — a porta está trancada; e os fantasmas da casa que o jardim devorou andam perdidos nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,

 meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui, de guarda aos pesadelos — a noite é um poema que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.

M.Ros.Amaral 
************************* Pedreira

domingo, 14 de outubro de 2012

Poetas da Nossa Terra



MULHER-MAIO


Bom dia, minha amiga, digo em Maio
és uma rosa à beira de um tractor
neste campo de Abril onde não caio
a nossa sementeira já deu flor.

Bom dia minha amiga, eu sou um gaio
um pássaro liberto pela dor
tu és a companheira donde saio
mais limpo de mim próprio mais amor.

Bom dia meu amor estamos primeiro
neste tempo de Maio a tempo inteiro,
contra o tempo do ódio e do terror.

Se tu és camponesa eu sou mineiro.

Se carregas no ventre um pioneiro
Dentro de ti eu fui trabalhador.

José Carlos Ary dos Santo

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Poetas da Nossa Terra



A FOTOGRAFIA


A fotografia que te mostra assim por inteiro
É a preto, branco e cinzento e olha para mim.
É carta que se diz de ti, é imagem que vem por ti
E olho-a com cores do sorriso e do coração
Como se a vontade fosse quem manda, sem mais regra.

A fotografia que te mostra assim, tem cheiro
De mar e de verde e de perfumes que são assim...
Tão únicos... especiais, como sei que nunca vi
Em toda a minha forma vivida de certeza e razão...
Há sabor na expressão que vejo e me alegra.

A fotografia que te mostra assim fala comigo,
Cara a cara, e lembra-me que me castigo
Por ter que castrar o querer estar contigo.

A fotografia que te mostra assim já é minha...
Hei-de gastá-la com olhos que pensava que não tinha,
Hei-de cheirá-la com sentido que na alma se aninha.

Valdevinoxis

sábado, 6 de outubro de 2012

Poetas da Nossa Terra




A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só.


terça-feira, 2 de outubro de 2012

Poetas da Nossa Terra


Rosa Maria  (Solidão)



É Noite no Meu País


É noite no meu País…no rosto dos nossos filhos há tristeza
É de desesperança o caminho…sem presente e sem futuro
Segue em frente sem medo…gritando em coro a incerteza
Rompe as correntes…derruba com a voz da razão esse muro

É noite no meu País…há desalento nos olhos do meu povo
Raiada de negro…desfralda-se ao vento a minha bandeira
Já nem é cor de esperança nem de sangue…tinge-a de novo
Com as belas cores rubras…sacode-lhe do orgulho a poeira

É noite no meu País…leva meu povo a revolta a passear
Solta as palavras que guardaste para o tempo de liberdade
Levanta a tua mão e acusa quem os teus filhos está a roubar
Não sorrias magoado…planta enfim os cravos da igualdade

É noite no meu País…é inverno na alma do meu nobre povo
Tangem sinais de descrença…levanta os braços cansados e luta
Pelo Portugal prometido…fá-lo das cinzas renascer de novo
Unidos na mesma crença…bebendo do mesmo copo a sicuta

É noite no meu País…a madrugada dos cravos está morrendo
O pão dos teus filhos está minguando…o sol deixou de brilhar
Com a indiferença dos verdugos deste povo…sempre crescendo
Caminha sem medo meu povo com um grito de revolta no olhar

No limite das forças…no fio da navalha
Assim caminhas meu País…desencantado
Vilipendiado e vendido pela escumalha
Grita meu povo por um Portugal libertado

Agradeço a disponibilidade da Autora.


  Visitem este blogue  único  http://rosasolidao.blogspot.com

domingo, 30 de setembro de 2012

Poetas da Nossa Terra





"Amo o que em ti..."

Amo o que em ti há de trágico. De mau.
De sublime. Amo o crime escondido no teu andar.
A tua forma de olhar. O teu riso fingido
e cristalino.
Amo o veneno dos teus beijos. O teu hálito pagão.
A tua mão insegura
na mentira dos teus gestos.
Amo o teu corpo de maçã madura.
Amo o silêncio perpendicular do teu contato
A fúria incontrolável da maré
nas ondas vaginais do teu orgasmo.
E esta tua ausência
Este não-ser que é. 
Manuela Amaral
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