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quarta-feira, 9 de maio de 2012

Poetas da Nossa Terra






 
Contra ti se ergue a prudência dos inteligentes e o arrojo dos patetas
A indecisão dos complicados e o primarismo
Daqueles que confundem revolução com desforra.

De poster em poster a tua imagem paira na sociedade de consumo
Como o Cristo em sangue paira no alheamento ordenado das igrejas

Porém
Em frente do teu rosto
Medita o adolescente à noite no seu quarto
Quando procura emergir de um mundo que apodrece. 


sábado, 5 de maio de 2012

Poetas da Nossa Terra



A magnólia

A exaltação do mínimo, 
e o magnífico relâmpago 
do acontecimento mestre 
restituem-me a forma 
o meu resplendor. 
.
Um diminuto berço me recolhe 
onde a palavra se elide 
na matéria - na metáfora - 
necessária,e leve, a cada um 
onde se ecoa e resvala. 

A magnólia, 
o som que se desenvolve nela 
quando pronunciada, 
é um exaltado aroma 
perdido na tempestade, 

um mínimo ente magnífico 
desfolhando relâmpagos 
sobre mim  



Luiza Neto Jorge
O seu a seu tempo

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Poetas da Nossa Terra




DORME MEU AMOR

Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais
este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega o pior já passou
há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão
desvia os passos do medo. Dorme, meu amor -

a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e pode levantar-se como um pássaro assim que
adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra
não hão-de derrubar-me eu já morri muitas vezes
e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos

agora e sossega a porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos
nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,

meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e
nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já
olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,
de guarda aos pesadelos a noite é um poema
que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.

M.R.Pedreira

terça-feira, 24 de abril de 2012

Poetas da Nossa Terra


Descobre quem és



Gastão Cruz



terça-feira, 17 de abril de 2012

Poetas da Nossa Terra



 estou escondido na cor amarga do fim da tarde

 sou castanho e verde no
campo onde um pássaro
caiu. sinto a terra e orgulho
por ter enlouquecido. produzo o corpo
por dentro e sou igual ao que
vejo. suspiro e levanto vento nas
folhas e frio e eco. peço às nuvens
para crescer. passe o sol por cima
dos meus olhos no momento em que o
outono segue à roda do meu tronco e, assim
que me sinta queimado, leve-me o
sol as cores e reste apenas o odor
intenso e o suave jeito dos ninhos ao
relento



valter hugo mãe

Poetas da Nossa Terra




ANIVERSÁRIO
Sentei-me com um copo em restos de
champanhe a olhar o nada.
Entre crianças e adultos sérios
tive trinta em casa.
 
Será comovedor os quatro anos
e a festa colorida,
as velas mal sopradas entre um rissol
no chão e os parabéns:
quatro anos de vida.
 
Serão comovedores os sumos de
laranja concentrados (proporções
por defeito) e os gostos tão
diversos, o bolo de ananás,
os pés inchados.
 
Será soberbamente comovente
toda a gente cantando,
o mau comportamento dos adultos
conversas-gelatinas e os anos
só pretexto.
ANA LUÍSA AMARAL , Minha Senhora de Quê,

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Poetas da Nossa Terra





Aqui cantaste nua.
Aqui bebeste a planicie, a lua,
e ao vento deste os olhos a beber.
Aqui abandonaste as mãos
a tudo o que não chega a acontecer.

Aqui vieram bailar as estações
e com elas tu bailaste.
Aqui mordeste os seios por abrir,
fechaste o corpo à sede das searas
e no lume de ti própria te queimaste.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Poetas da Nossa Terra



MINIBIOGRAFIA


Não me quero com o tempo nem com a moda
Olho como um deus para tudo de alto
Mas zás! do motor corpo o mau ressalto
Me faz a todo o passo errar a coda.

Porque envelheço, adoeço, esqueço
Quanto a vida é gesto e amor é foda;
Diferente me concebo e só do avesso
O formato mulher se me acomoda

E se nave vier do fundo espaço
Cedo raptar-me, assassinar-me, cedo:
Logo me leve, subirei sem medo
À cena do mais árduo e do mais escasso.

Um poema deixo, ao retardador:
Meia palavra a bom entendedor.



Luiza Neto Jorge
poèmes
Par le Feu

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Poetas da Nossa Terra


Uma Boa e Santa Páscoa para todos




Deve ser o último tempo


Deve ser o último tempo
A chuva definitiva sobre o último animal nos pastos
O cadáver onde a aranha decide o círculo.
Deve ser o último degrau na escada de Jacob
E último sonho nele
Deve ser-lhe a última dor no quadril.
Deve ser o mendigo à minha porta
E a casa posta à venda.
Devo ser o chão que me recebe
E a árvore que me planta.
Em silêncio e devagar no escuro
Deve ser a véspera.Devo ser o sal
Voltado para trás.
Ou a pergunta na hora de partir.



Daniel Faria
de Explicação das Árvores e de Outros Animais
1998

domingo, 1 de abril de 2012

Poetas da Nossa Terra


Como na o amor desaparece


Como na o amor desaparece
carne mansa do mar na doce arena
a boca que retinha
da coragem alegre o tempo firme
e mais na seca areia que
o amor fundamente perdida
e mais no mar amargo que
os ardores separados e vivos do amor
decomposta mais nesta praia viva me comove
a doçura do sol as secas águas
que a própria do amor escassa boca
da morte requerida porque mais
que a boca do amor morre no mar
a vida reprimida

in «Poemas Reunidos», Escassez,