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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Poetas da Nossa Terra



As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram

Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens

Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro

E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.

Daniel Faria

de Homens Que São Como Lugares Mal Situados (1998)


segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Poetas da Nossa Terra




As pessoas sensíveis

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas


O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra


"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão."


Ó vendilhões do templo
Ó constructores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito


Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.



Sophia de Mello Breyner Andresen
(Livro sexto)

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Poetas da Nossa Terra



 :  o órgão do mar 

  
por vezes
quando caminho sobre as pedras da beira rio
que se rasgam sob os passos
interrogo a tarde e os fantasmas
que se escapam destas fendas.


ao som de uma melodia evanescente
abro as portas da alma
e, de par em par,
todos os portões do corpo.


sem amarras, à beira de Ser
acalmo então a passada


leio teresa
o poema da recusa e pressinto
que se não as polpas
então os verbos crus nus como
os meus pés descalços, sempre descalços, sabem de ti
da erva
da cidade
do mar que é nosso
que unindo afasta as marés e as margens,


da falésia


de todas as coisas visíveis
de todas as se opõem
simétricas e complementares


das que falam
das que calam
das que gemem de prazer
das que gritam gaivotas soltas no silêncio de mulher,


é então que, em emudecimento contemplativo, oiço a lição de nietzsche
e, experimentada, solto o elástico que me prende


no vazio em queda livre, convicta
deixo-me pender, árvore de braços abertos
sobre o mar …


Teresa Horta
Poema inédito

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Poetas da Nossa Terra





SOMOS  LIVRES







José Fanha

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Poetas da Nossa Terra


Esta manhã encontrei o teu nome


Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida

foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama

e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos,
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.

Maria do Rosário Pedreira

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Poetas da Nossa Terra



A noite chega com todos os seus rebanhos


Uma cidade amadurece nas vertentes do crepúsculo
Há um íman que nos atrai para o interior da montanha.
Os navios deslizam nos estuários do vento.
Alguma coisa ascende de uma região negra.
Alguém escreve sobre os espelhos da sombra.
A passageira da noite vacila como um ser silencioso.
O último pássaro calou-se.As estrelas acenderam-se.
As ondas adormeceram com as cores e as imagens.
As portas subterrâneas têm perfumes silvestres.
Que sedosa e fluida é a água desta noite!
Dir-se-ia que as pedras entendem os meus passos.
Alguém me habita como uma árvore ou um planeta.
Estou perto e estou longe no coração do mundo.



de A Rosa Esquerda(1991)

Ramos Rosa

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Poetas da Nossa Terra



POEMA SOBRE A RECUSA


Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.

In "Vozes e Olhares Femininos"

 Mª Tereza Horta

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Poetas da Nossa Terra


:  A fotografia 
A fotografia que te mostra assim por inteiro
É a preto, branco e cinzento e olha para mim.
É carta que se diz de ti, é imagem que vem por ti
E olho-a com cores do sorriso e do coração
Como se a vontade fosse quem manda, sem mais regra.

A fotografia que te mostra assim, tem cheiro
De mar e de verde e de perfumes que são assim...
Tão únicos... especiais, como sei que nunca vi
Em toda a minha forma vivida de certeza e razão...
Há sabor na expressão que vejo e me alegra.

A fotografia que te mostra assim fala comigo,
Cara a cara, e lembra-me que me castigo
Por ter que castrar o querer estar contigo.

A fotografia que te mostra assim já é minha...
Hei-de gastá-la com olhos que pensava que não tinha,
Hei-de cheirá-la com sentido que na alma se aninha.

Valdevinoxis

domingo, 21 de agosto de 2011

Poetas da Nossa Terra

Monumento em Santa Cruz



Um poema de João de Barros

CAMINHO

a Ferreira de Castro


Dizem aqueles tristes que julgaram
Ter vivido num dia toda a vida:
-- É tudo engano e a alma aborrecida
Morre dos ideais que alucinaram...

E aos outros gritam: -- Onde, esta subida
Atrás das ilusões que vos chamaram?
-- Loucos, parai... Só esses que pararam
Chegaram à verdade apetecida!

Mas nós -- nem os ouvimos, nós, os fortes
Que através de mil prantos e mil mortes,
Sabemos que a verdade ou a ilusão,

-- Ideia altiva ou corpo de mulher --
Nunca podem fugir a quem tiver
Beijos de amor e garras de ambição!


Humilde Plenitude, Lisboa, Livros do Brasil, 1951

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Poetas da Nossa Terra



Antes que seja tarde amigo

Antes que Seja Tarde Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.


Manuel da Fonseca, in "Poemas Dispersos"