Seguidores

sábado, 11 de setembro de 2010

Poetas da Nossa Terra


O RECREIO

Na minha Alma há um balouço
Que está sempre a balouçar -
Balouço à beira dum poço,
Bem difícil de montar...

- E um menino de bibe
Sobre ele sempre a brincar...

Se a corda se parte um dia
(E já vai estando esgarçada),
Era uma vez a folia:
Morre a criança afogada...

- Cá por mim não mudo a corda,
Seria grande estopada...

Se o indez morre, deixá-lo...
Mais vale morrer de bibe
Que de casaca... Deixá-lo
Balouçar-se enquanto vive...

- Mudar a corda era fácil...
Tal ideia nunca tive...

Mário Sá Carneiro

**********************

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Poetas da Nossa Terra

ZECA -- Poeta Emblemático



Elaboração do seu retrato, cantando linda canção

****************************
****************************

sábado, 4 de setembro de 2010

Poetas da Nossa Terra


ÉS BELA

Es bela, sim, quando, corando, foges
Dum beijo perseguida;
Ou quando cedes com mais pejo ainda,
Mas na luta vencida.

És bela, sim, quando, banhada em lágrimas,

Soltas mimosas queixas;
Ou quando, comovida por maus prantos,

Já ameigar-te deixas.

És bela, sim, à luz do Sol nascente
Regando tuas flores,
Ou com os olhos no ocaso e o pensamento
No país dos amores.

És bela sempre, e o mesmo fogo acendes
No coração do poeta;
És bela sempre, ó linda flor do prado,
Ó mimosa violeta,

JúlioDinis

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Poetas da Nossa Terra


O amor

MOTE

Amor é chama que mata,
Sorriso que desfalece,
Madeixa que desata,
Perfume que esvaece.



GLOSAS

Amor é chama que mata,
Dizem todos com razão,
É mal do coração
E com ele se endoidece.
O amor é um sorriso
Sorriso que desfalece.

Madeixa que se desata
Denominam-no também.
O amor não é um bem:
Quem ama sempre padece.
O amor é um perfume
Perfume que se esvaece.

Mário de Sá-Carneiro

**************************

sábado, 28 de agosto de 2010

Poetas da Nossa Terra


Sem Remédio

Aqueles que me tem muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor,
À minha porta e, nesse dia, entrou.

E e desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

Sinto os passos da Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!...

Florbela Espanca


quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Poetas da Nossa Terra


Poemas

Na grande confusão

deste medo
deste não querer saber
na falta de coragem
ou na coragem de
me perder
me afundar
perto de ti
tão longe
tão nu
tão evidente
tão pobre como tu
oh diz-me quem sou eu
quem és tu?



A.Ramos Rosa

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Poetas da Nossa Terra


Quando estou só reconheço

Quando estou só reconheço
Se por momentos me esqueço
Que existo entre outros que são
Como eu sós, salvo que estão
Alheados desde o começo.

E se sinto quanto estou
Verdadeiramente só,
Sinto-me livre mas triste.
Vou livre para onde vou,
Mas onde vou nada existe.

Creio contudo que a vida
Devidamente entendida
É toda assim, toda assim.
Por isso passo por mim
Como por cousa esquecida.

Fernando Pessoa

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Poetas da Nossa Terra


MORENA

Morena, morena
Dos olhos castanhos,
Quem te deu morena,
Encantos tamanhos?

Encantos tamanhos

Não vi nunca assim.

Morena, morena
Tem pena de mim.

Morena, morena
Dos olhos rasgados,
Teus olhos, morena,
São os meus pecados.


São os meus pecados

Uns olhos assim.

Morena, morena
Tem pena de mim.


Morena, morena

Dos olhos galantes,

Teus olhos morena
São dois diamantes.


São dois diamantes

Olhando-me assim.

Morena, morena

Tem pena de mim.

Morena, morena
Dos olhos morenos,
O olhar desses olhos
Concede-me ao menos.


Concede-me ao menos

Não sejas assim.

Morena, morena
Tem pena de mim.


Júlio Dinis

»»»»»»»»»»»»»»»»»««««««««««««

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Poetas da Nossa Terra



Tenho pena e não respondo

Tenho pena e não respondo.
Mas não tenho culpa enfim
De que em mim não correspondo
Ao outro que amaste em mim.

Cada um é muita gente.
Para mim sou quem me penso,
Para outros --- cada um sente
O que julga, e é um erro imenso.

Ah, deixem-me sossegar.
Não me sonhem nem me outrem.
Se eu não me quero encontrar,
Quererei que outros me encontrem?

Fernando Pessoa

domingo, 15 de agosto de 2010

Poetas da Nossa Terra




Intimidade
No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.

José Saramago

»»»»»»»»»»««««««««««