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quinta-feira, 29 de abril de 2010

Poetas da Nossa Terra

Quadras ao Gosto Popular


Não sei se a alma no Além vive...
Morreste! E eu quero morrer!
Se vive, ver-te-ei; se não,
Só assim te posso esquecer.

Se ontem à tua porta
Mais triste o vento passou —
Olha: levava um suspiro...
Bem sabes quem to mandou...

Entreguei-te o coração,
E que tratos tu lhe deste!
É talvez por 'star estragado
Que ainda não mo devolveste ...

A caixa que não tem tampa
Fica sempre destapada
Dá-me um sorriso dos teus
Porque não quero mais nada.

Tens o leque desdobrado
Sem que estejas a abanar.
Amor que pensa e que pensa
Começa ou vai acabar.

Fernando Pessoa

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segunda-feira, 26 de abril de 2010

Poetas da Nossa Terra

Da Tua Vida


Da tua vida o que não podem entender
Nem oiro nem poder nem segurança
Mas a paixão do Tempo e de seus riscos
Tu buscaste o instante e a intensidade
E foste do combate e da mudança
Por isso um rastro de ruptura e de viagem
Ou talvez este fogo inconquistado
Como breve eternidade
De passagem

Manuel Alegre, in "Chegar Aqui"

Alegre tem cátedra em Pádua

É hoje inaugurada em Pádua a cátedra com o nome de Manuel Alegre, dedicada à língua, literatura e cultura portuguesas. .
19 Abril 2010 - O escritor e poeta Manuel Alegre assiste hoje, na Universidade de Pádua, à inauguração da cátedra com o seu nome destinada ao estudo da língua, literatura e cultura portuguesas.
No sábado, Alegre, cuja obra O Miúdo que Pregava Pregos numa Tábua foi editada recentemente, esteve presente na Universidade Roma Tre na qual participou num encontro com estudantes, e amanhã deslocar-se-á à Universidade Ca'Foscari, em Veneza, onde participa num encontro sobre poesia, juntamente com três outros poetas europeus.
Em declarações à agência Lusa, o escritor manifestou-se "bastante honrado" com a distinção, sublinhando tratar-se de uma maneira de afirmar a nossa literatura e a que é escrita em português.A cátedra Manuel Alegre na Universidade de Pádua foi instituída no departamento de Românicas da Faculdade de Letras e Filosofia e os seus promotores justificam-na alegando que Alegre é um "poeta, romancista, político e intelectual de topo do Portugal contemporâneo. Sem nunca renunciar ao empenhamento político, explora num registo de contínua e forte originalidade áreas temáticas universais, como a da errância, já que 'todos somos exilados de Florença' na esteira da grande tradição literária filiada em Portugal na "lusitana antiga liberdade", de Luís Vaz de Camões, particularmente cara também ao lema da Universidade de Pádua: Universa Universis Patavina Libertas (Liberdade de Pádua, Universal e para todos)", ainda segundo os seus criadores.
Poemas de Manuel Alegre estão incluídos em várias antologias de poesia portuguesa editadas em Itália, nomeadamente em La Nuova Poesia Portoghese (1975), Poeti Portoghese Contemporanei (19


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sábado, 24 de abril de 2010

Para não esquecer

A Celebre Canção


25 de Abril.....Sempre

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sexta-feira, 23 de abril de 2010

Poetas da Nossa Terra


Quadras ao Gosto Popular


Cantigas de portugueses
São como barcos no mar —
Vão de uma alma para outra
Com riscos de naufragar.

Eu tenho um colar de pérolas
Enfiado para te dar:
As per'las são os meus beijos,
O fio é o meu penar.

A terra é sem vida, e nada
Vive mais que o coração...
E envolve-te a terra fria
E a minha saudade não!

Deixa que um momento pense
Que ainda vives ao meu lado...
Triste de quem por si mesmo
Precisa ser enganado!

Morto, hei de estar ao teu lado
Sem o sentir nem saber...
Mesmo assim, isso me basta
P'ra ver um bem em morrer.

Fernando Pessoa
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quarta-feira, 21 de abril de 2010

Poetas da Nossa Terra


VAIDADE


Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,

E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho...! e não sou nada

Florbela Espanca

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segunda-feira, 19 de abril de 2010

Poetas da Nossa Terra


Um Dia é Pouco ao Pé de Margarida


A nossa intimidade a três ou quatro é constrangida.
Tenho medo no ângor e uma urtiga no pé.
Um dia é pouco ao pé de Margarida:
A ausência é menos sozinha,
A muita companhia dá bandos longe. Até
A vida
É
Se tua, já menos minha:
Se própria de meu, repartida,
Por muitos na atenção, nem tua é.
Só nossa solidão dual e penetrada
Evita o perigo do nada
A que, por condição, setas, as nossas pernas
Apontam na cavidade inexorável,
Fim de molécula qualquer.
Mas, entretanto, Margarida amável
Será flor, ou mulher?


Vitorino Nemésio,
in "Caderno de Caligraphia e
outros Poemas a Marga"

sábado, 17 de abril de 2010

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Poetas da Nossa Terra

Joaquim Pessoa



DE BRUÇOS ME DEBRUÇO MAIS AINDA


De bruços me debruço mais ainda

até sentir os olhos tumefactos

para saber até que ponto é linda

a intrigante cor desses sapatos


que às tuas pernas dão um brilho tal

e uma leveza tal ao teu andar,

que eu penso (embora aches anormal)

que nunca te devias descalçar.


Também porquê, se já não há verdura

nem tu és Leonor para correr

descalça, no poema, à aventura?


O mais difícil, hoje, é antever

quem é que vai à fonte em literatura

e que água dá aos versos a beber.


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terça-feira, 13 de abril de 2010

Poetas da Nossa Terra


Fim do Coito


Resposta a um Deputado do CDS na Assembleia da República


Já que o coito - diz Morgado -

tem como fim cristalino,

preciso e imaculado

fazer menina ou menino;

de cada vez que o varão

sexual petisco manduca,

temos na procriação

prova de que houve truca-truca.

Sendo pai só de um rebento,

lógica é a conclusão

de que o viril instrumento

só usou - parca ração! -

uma vez. E se a função

faz o órgão - diz o ditado -

consumada essa excepção,

ficou capado o Morgado.

Natália Correia

domingo, 11 de abril de 2010

Poetas da nossa Terra



Quem dorme a noite comigo

De um Fado de Amália


Quem dorme à noite comigo?
É meu segredo, é meu segredo!
Mas se insistirem, desdigo.
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo!

E cedo, porque me embala
Num vaivém de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.

Que farei quando, deitado,
Fitando o espaço vazio,
Grita no espaço fitado
Que está dormindo a meu lado,
Lázaro e frio?

Gritar? Quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim?
Gostava até de matar-me.
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.


ALAIN OULMAN