sábado, 5 de janeiro de 2013

Poetas da Nossa Terra





O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros.

                     
O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros.
. As tardes vão-se repetindo no terraço, onde as palavras
são pequenos lugares de memória. Estou divorciada dos
outros pelo tempo destas entrelinhas - longe de casa,
tenho sonhos que não conto a ninguém, viro devagar

a primeira página: em fevereiro, eles ainda faziam amor

à sexta-feira. De manhã, ela torrava pão e espremia
laranjas numa cozinha fria. Havia mais toalhas para lavar
ao domingo, cabelos curtos colados teimosamente ao
espelho.
Às vezes, chovia e ambos liam o jornal, dentro do carro,
antes de se despedirem. As vezes, repartiam sofregamente
a infância, postais antigos, o silêncio - nada

aconteceu entretanto. Regresso, pois, à primeira linha,

à verdade que remexe entre as minhas mãos. Talvez os olhos
estivessem apenas desatentos sobre o livro; talvez as histórias
se repitam mesmo, como as tardes passadas no terraço, longe
de casa. Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém.



Maria do Rosário Pedreira
de A Casa e o Cheiro dos Livros


3 comentários:


  1. Belo poema!

    Sigo o blogue desta poetisa 'Horas Extraordinárias', em que ela fala das suas leituras e dos livros que edita.

    Abraço.

    Olinda

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  2. Os poemas desta poetisa são verdadeiramente belos e todos os que dela leio revelam uma componente muito forte e acentuada no que se refere às suas leituras, às histórias que ele lê e à forma como as interpreta...!!!
    Gosto Muito...!!!!
    E deste poema, particularmente, porque põe a tónica "nos sonhos que não conto a ninguém"......
    Tenha um bom fim de semana Andrade...
    Albertina

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  3. Meu querido amigo

    Mais uma grande poetisa, eu adoro Maria do Rosário Pedreira, ainda comprei o livro dela Poesias Reunidas.

    Um beijinho com carinho
    Sonhadora

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