terça-feira, 23 de novembro de 2010

Poetas da Nossa Terra






RITUAL DO AMOR
I

A fímbria do vestido

a fenda do vestido
As pernas cruzadas
na racha entreaberta
Os braços erguidos
e o vestido
subido nas coxas que já despe
II

Depois é a penumbra

e o vestido
a tirar pela cabeça
amarrotado
As mãos abocanhando
o cimo do vestido
no desatino - na pressa
que as invade
Acesa a carne
no ócio dessa tarde
liberta enfim da seda do vestido
que em vez de seda é sede
e é a tarde
acesa enfim no corpo sem vestido
III

A fímbria do vestido

a fenda do vestido
na febre em que
se despe
e é tirado
no hálito do quarto
ou atirado
e cai devagar
depois de ser despido
IV

Aos pés está o vestido amachucado
depois os joelhos no vestido
as coxas brandas e doces
no tecido
que vai cedendo ao gosto dessa tarde
V

A fímbria do vestido

a fenda do vestido
que se ergue
do chão
amarfanhado
o vestido que mal foi despido
conheceu do corpo
o peso do seu acto
VI

Assim volta à maneira

de vesti-lo
tornar a descê-lo pelos braços
cortando logo a tarde
e a ternura
perdida na penumbra desse quarto
VII

Quanta saudade
da seda do vestido
que à pele adere
num outro abraço
Baraço entorpecido
nos sentidos
secreta maneira
de tolher os passos
VIII

A fímbria do vestido

a fenda do vestido
Já só memória
o corpo todo
nu
Dissimulado agora pelo vestido
que os dedos abandonam
um a um


IX

A fímbria do vestido
a fenda do vestido

que o gesto alisa

ao descer o fato

Vestido que na fímbria

ainda é vestido
mas não na fenda
onde já se abre
M.Teresa Horta
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12 comentários:

  1. Meu amigo

    Simplesmente maravilhoso este poema...fiquei extasiada.

    Deixo um beijinho
    Sonhadora

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  2. Parabéns pela escolha!
    Lindo este Poema!
    Sabes,vai sair um novo Livro destas Poetisas.
    Estou curiosa.
    Beijo.
    isa.

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  3. Amigo Andrade!

    Bela escolha,este poema simplesmente sublime!!!

    Abraço
    Lourenço

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  4. Estou aqui nesse site magnifico atravez do blog da Miriam..
    Entrei seguindo você e conto com sua vida caso gostar siga-me também.
    Querido ,seus poemas de facto tocam meu coração .
    Um grande e fraternal abraço,Evanir
    www.fonte-amor.zip.net

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  5. Boa tarde Zé, meu querido!
    Maria Teresa Horta, acredito que ela seja uma das mais exuberantes e extraordinárias escritoras e poetisas do nosso tempo, que desenha erotismo transformado em letras:
    Deixo pra ti estes versos que gosto muito.

    DESPERTA-ME DE NOITE
    O TEU DESEJO
    NA VAGA DOS TEUS DEDOS
    COM QUE VERGAS
    O SONO EM QUE ME DEITO
    É REDE A TUA LINGUA
    EM SUA TEIA
    É VICIO AS PALAVRAS
    COM QUE FALAS

    A TRÉGUA
    A ENTREGA
    O DISFARCE

    E LEMBRAS OS MEUS OMBROS
    DOCEMENTE
    NA DOBRA DO LENÇOL QUE DESFAZES

    DESPERTA-ME DE NOITE
    COM O TEU CORPO
    TIRAS-ME DO SONO
    ONDE RESVALO

    E EU POUCO A POUCO
    VOU REPELINDO A NOITE
    E TU DENTRO DE MIM
    VAI DESCOBRINDO VALES.

    Beijinho....
    Mara

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  6. Olá

    Umam bela escolha, este poema, há muito tempo que não o ouvia!

    Abraço

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  7. Maria Teresa Horta é tudo de bom! Que poeta sensacional!
    Grata pla postagem!
    Bj, Tê!

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  8. *
    como é belo,
    a fímbria dos poemas,
    de M. T. Horta !
    ,
    brisas serenas,
    ,
    *

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  9. Oi Andrade

    Desculpe-me a demora em aparecer.

    Lindo poema, parabéns pela escolha.

    Bjs no coração!

    Nilce

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