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sábado, 6 de outubro de 2012

Poetas da Nossa Terra




A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só.


2 comentários:

isa disse...

Que escolha que fizeste!!
Conhecia o Poema,mas ñ me recordava!
Arrepia,pq é atual,infelizmente.
É o espelho de muita gente hoje.
Dá um "abanão".
Beijo.
isa.

Vento disse...

António Ramos Rosa tem esse dom:
o de ser sempre real.
eu não lembrava esse poema e é de facto arrepiante tendo em conta o momento dificil e frustrante que atravessamos.
abraço